A presidente da Junta de Freguesia de Agilde, em Celorico de Basto, fala com entusiasmo da sua terra. Em entrevista, revela os desafios que enfrenta, como o envelhecimento da população, e fala da melhoria de infraestruturas locais. Com um orçamento de 166.700€, propõe-se investir em áreas essenciais. Além disso, partilha a «experiência única» da sua passagem pela Assembleia da República.
João Paulo Mesquita
P. Que breve caracterização faz de Agilde?
R. É uma aldeia localizada na zona alta do concelho, com proximidade aos concelhos de Felgueiras e Fafe. Tem cerca de 1.153 residentes, de acordo com o Censos 2021. Mas desde então a esta parte, foram vários os óbitos e os nascimentos, bem como a procura de residência por parte de migrantes e de população vinda de concelhos limítrofes, que procura um lugar privilegiado pelo sossego, pela natureza e com acesso fácil a centros urbanos. Apresenta uma paisagem marcada por terrenos agrícolas e florestais. As principais atividades económicas são a agricultura e a criação de gado, que continuam a ter grande relevância. Bastantes residentes trabalham também noutros setores, deslocando-se para fora da freguesia para trabalharem nas indústrias de calçado e de confeção e também nos serviços.
P. Neste contexto, quais são os problemas que enfrenta o seu executivo?
R. Temos vários desafios pela frente, nomeadamente o de combater o envelhecimento da população e a baixa natalidade, o acesso a mais transportes, o apoio à população mais vulnerável e de baixos recursos, o que condiciona os investimentos e a melhor manutenção de espaços públicos.
P. Qual é o orçamento?
R. O orçamento da Junta de Freguesia para este ano é de 166.700€.
P. Falemos, por exemplo, de saneamento. Está em curso um investimento significativo de que vai beneficiar a freguesia. Quer falar-me disso?
R. O saneamento era um serviço há muito reivindicado, que se iniciou no ano passado. É um serviço fundamental para a qualidade de vida das pessoas e para preservar um ambiente saudável, prevenindo igualmente doenças. As fossas comuns, despejadas pelos campos e regadios, além de provocarem danos irreparáveis nas águas, são um atentado à saúde. É inaceitável que continue a acontecer.
A rede de saneamento era muito desejada pela população. Claro que as obras têm criado alguns constrangimentos, mas, com a compreensão e o bom senso da população, em meados de março/abril estará concluída em mais de 50% da freguesia. Posteriormente, a instalação continuará nos locais que este projeto não contemplou. Refiro-me à Rua de Agilde, aos lugares de São Pedro, Alijão e Queiriz e a algumas ruas secundárias, como o Casal, parte do Ladário e Outeiro.
P. Já que falamos de obras, há uma, interessante, no centro da freguesia, o parque frente à igreja… Mas falta a casa mortuária. Tem intenção de avançar com esse projeto ou não vai ser para já?
R. A intenção de construir a casa mortuária é prioridade para este mandato. Embora Agilde não esteja desamparada nesta questão. Temos o salão da Junta, espaço que funciona como multiusos. Acolhe a prática do exercício físico, às segundas e quartas-feiras; é sala de formação, às quintas-feiras; é sítio para ensaios dos “Alma Serrana”, à terça-feira; e, sempre que solicitado, para palestras e formações. Sempre que falece alguém, este é também o espaço que funciona como casa mortuária, com disponibilidade imediata e sem custos. A Junta suporta todas as despesas. Vamos avançar com a construção, frente à igreja, ainda este ano. Fá-lo-emos por partes, para não sobrecarregar financeiramente a Junta. Gostaria de acrescentar que o parque criado neste espaço, bem como o estacionamento, o parque de merendas e o parque infantil, vieram beneficiar muito a freguesia, organizando o espaço e acrescentando bem-estar.
P. A freguesia tem também uma interessante área balnear fluvial. Tem pensada alguma forma de dinamizar e potenciar a atratividade daquele espaço?
R. O espaço envolvente à zona balnear tem vindo a sofrer alterações, nomeadamente na compra dos terrenos envolventes para a dinamização de um espaço onde a população possa passar bons momentos de lazer. Aquando da autorização da “Hidroerg”, que é a responsável pelo aproveitamento hidroelétrico, é feita a limpeza do curso de água e colocado areia para que a população possa ter um espaço digno e funcional, atrativo para jovens e menos jovens.
P. Agilde é a hospedeira de um clube de futebol da freguesia vizinha. Estavam previstos melhoramentos nesse equipamento. Já estão a acontecer?
R. O campo de futebol de Agilde é um espaço que recebe várias equipas do Mota Futebol Clube, divididas por escalões. É também um espaço que pode ser dinamizado para outras práticas desportivas. Encontra-se na fase final a ampliação do espaço, nomeadamente novos balneários. Saliento-lhe que são muitos os jovens de Agilde que integram as várias equipas do Mota FC. A relação que temos com a direção do clube é saudável e tem um único objetivo: criar igualdade de oportunidades para todos os jovens que queiram iniciar uma carreira no futebol ou simplesmente praticar a modalidade.
P. Bem perto do campo de futebol, tem ali uma área enorme sem utilização… Tem lá um baloiço… Quais as suas intenções?
R. A intenção é organizar o espaço envolvente ao baloiço, criar um parque de estacionamento e criar condições para que a população possa usufruir da paisagem maravilhosa, em segurança e com conforto.
P. Um dos problemas que afetam particularmente a sua freguesia é precisamente o das vias de comunicação, muito concretamente a EN 101.4…
R. A retificação da EN 101.4 está prevista e orçamentada. Estava previsto que fosse concluída até meados de março… No entanto, este ano atravessamos um inverno atípico, como há alguns anos não tínhamos, o que está a dificultar a continuidade desta obra. De facto, o pavimento está péssimo, concretamente na entrada de Agilde/Várzea. Defendo e defenderei sempre os melhores interesses para Agilde. É evidente e visível a urgência desta intervenção. De salientar ainda que temos o apoio da Câmara Municipal para concretizar este e outros projetos. No próximo ano letivo, iremos adquirir uma viatura para fazer o transporte das crianças para a escola e para transporte dos idosos a consultas no centro de saúde…
P. Por falar nisso, a senhora preside a uma das poucas freguesias do concelho que tem um jardim de infância. Quantas crianças tem? Acha que está garantido o seu funcionamento nos próximos anos? Fale-me desta questão…
R. O Jardim-de-Infância de Agilde tem 12 crianças. Para março prevê-se a entrada de mais uma. No final do ano letivo apenas transitará uma criança para o 1.º Ciclo e entrarão mais crianças no início do próximo ano. Agilde continua a ser uma das freguesias com mais crianças no contexto concelhio, pelo que este jardim-de-infância tem todas as condições para se manter em pleno funcionamento, continuando com as portas abertas. É um gosto e um orgulho termos as nossas crianças perto de nós, em situação de conforto térmico, físico e humano. Os recursos humanos dão o seu melhor para que as crianças se sintam bem.
P. Agilde tem código postal do concelho vizinho, Felgueiras. Isso não traz problemas no quotidiano?
R. Desde sempre conheço a nossa freguesia com o código postal do concelho de Felgueiras e sempre funcionou bem. Alguns constrangimentos que eventualmente ocorram na distribuição de correio serão fruto de ocorrências pontuais, provocadas por terceiros ou por fatores externos. Não somos a única freguesia com o código postal diferente do do respetivo concelho. Temos, por exemplo, a freguesia do Rego, que tem o código de Fafe.
P. A propósito, não é a Junta de Freguesia que gere um posto dos CTT? Que serviços fundamentais são ali prestados? Como funciona?
R. Sim. Recentemente, a Junta de Freguesia instalou uma loja dos CTT nas suas instalações. É uma resposta que dispomos para a população. Ali, é possível fazer o levantamento de encomendas e cartas registadas, enviar correio, comprar produtos, “levantar a reforma” e outros serviços equiparados aos postos dos CTT espalhados pelo país. Encontra-se em funcionamento, diariamente, das 9h00 às 12h30 e das 13h30 às 17h00.
P. Pode explicar-me como está estruturada a organização do ensino na freguesia? Funciona bem este setor? Os transportes são razoáveis?
R. As crianças dos 3 aos 6 anos podem frequentar o Jardim-de-Infância, aó concluindo a educação pré-escolar. Depois, podem integrar o Centro Escolar da Mota para fazer o 1.º Ciclo. Prosseguindo estudos, têm a Escola Básica da Mota, para a frequência dos 2.º e 3.º ciclos. A partir de então, têm de dar continuidade ao Secundário na sede do próprio concelho, ou nos concelhos vizinhos. Quanto aos transportes, eles são gratuitos e compatíveis com os seus horários escolares. Há sempre alternativa, para que no término das atividades letivas, possam regressar a casa sem terem de esperar muito tempo.
P. Dr.ª Sílvia Cunha, teve, na legislatura anterior, uma breve experiência na Assembleia da República. Gostou de ser deputada?
R. Fui deputada na Assembleia da República de 13 de março até 12 de junho. Foi uma experiência única e maravilhosa, que eventualmente não se me tornará a proporcionar. No dia em que fui informada de que teria de me apresentar no Parlamento, perdoe-me a expressão, mas “chorei baba e ranho”. Ia para um mundo desconhecido, sozinha e num tempo governativo controverso, pelo que ia sem grandes expetativas. Mas desde o primeiro minuto em que entrei naquela casa que me senti acolhida e acarinhada. Aprendi regras, adquiri conhecimentos que alguma vez imaginaria acontecer. Os deputados por Braga fizeram-me sentir pertença daquela casa e do grupo social-democrata, com ética e profissionalismo. Jamais esquecerei esta experiência. Guardo memórias e episódios únicos.
P. E está a gostar de ser presidente da Junta de Freguesia?
R. Gosto de ser presidente de Junta. Se me perguntar se é fácil, digo-lhe que não é, não é… Cresci com uma educação basilar, em que o respeito e a empatia com o outro têm de andar de mãos dadas. Por vezes, querermos respeitar o outro e tomarmos decisões assumindo o seu lugar torna difícil o nosso trabalho. Nem sempre conseguimos dar a resposta imediata desejada por quem a nós recorre. E falo no plural porque somos uma equipa, que lidero, mas em que todos têm opinião e participação. Cresci nesta freguesia desde os 7 anos e desde essa altura que me envolvo em todas as causas locais. Já assumi responsabilidade em muitos grupos e aí defendi os interesses de Agilde. Esta é a minha Terra. É aqui que sou feliz. Costumo dizer que, se algum dia me virem morar fora de Agilde, serei uma pessoa infeliz.
P. Tem uma vida particular muito ativa: trabalha fora de casa, tem intervenção política e a sua atividade do foro religioso é também bastante. Como concilia todas estas realidades?
R. De facto, tenho uma vida muito ativa, quer no foro político, quer no foro religioso ou social. Mas há um segredo: tenho uma família maravilhosa, que passa a vida a chamar-me à atenção para abrandar, para saber dizer não, para olhar mais por mim… Mas que está sempre disponível para me acompanhar, nem que seja por detrás do cenário, uma vez que nem todos gostam de subir ao palco. Este reconhecimento faço-o para toda a minha família alargada. Mas tenho de particularizar os meus pais, incansáveis comigo e com o meu irmão. São os verdadeiros pais. São os que merecem o reconhecimento por todo o meu trabalho, pois souberam educar-nos com muito amor, respeito e responsabilidade e fizeram de nós lutadores incansáveis. Um bem-haja a todos os pais que o sabem ser na plenitude.






