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Freguesia de Carvalho recupera poses e estronçada

Têm nomes invulgares: poses e estronçada. São duas tradições, mais características dos tempos carnavalescos, que caíram em desuso. A associação cultural e a autarquia estão apostas em as reabilitar. Lembre as características de cada uma delas.

João Paulo Mesquita

A freguesia de Carvalho, na zona alta de Celorico de Basto, propõe-se recuperar de uma assentada duas das tradições mais características da região, tendo agendada para 13, 14 e 15 de fevereiro a “Feira dos Poses”, certame que já não se realiza «há mais de 30 anos».

E além dos “poses”, é no contexto desta feira de Carnaval que a Associação Cultural e Recreativa de Carvalho e a Junta da União de Freguesias de Carvalho e Basto Santa Tecla querem reabilitar igualmente a “estronçada”, um prato muito característico da gastronomia local, que caiu em desuso.

Realizada na época carnavalesca, a feira era muito mais do que um simples encontro festivo: funcionava como um espaço privilegiado de convívio social e, sobretudo, de interação entre rapazes e raparigas num contexto rural marcado por fortes códigos de comportamento.

O elemento central da tradição eram os chamados “poses”: mãos-cheias de papel colorido, cuidadosamente picotado à mão, que os rapazes preparavam antecipadamente ou – como lembrou ao Terras de Basto o presidente da associação, António Marinho – comprados em quantidades diversas, devidamente empacotados, nas barraquinhas desta feira.

No meio do ajuntamento, esses “poses” eram lançados de forma simbólica aos cabelos das raparigas, um gesto aparentemente simples que assumia um significado claro dentro da comunidade: representava uma tentativa discreta de aproximação, um convite à conversa ou uma demonstração de interesse amoroso.

A resposta das raparigas era igualmente reveladora. Um sorriso, a aceitação do gesto ou a permanência no local indicavam abertura ao diálogo; o afastamento ou a rejeição silenciosa transmitiam uma recusa clara, sem necessidade de palavras.

Tratava-se, assim, de um ritual socialmente aceite, pautado pelo respeito e pela subtileza, que permitia a aproximação entre jovens num tempo em que as oportunidades de contacto eram escassas e rigidamente vigiadas.

Inserida no espírito do Carnaval, a “Feira dos Poses” beneficiava da liberdade própria deste período do ano, marcado pela suspensão temporária de algumas normas sociais. Ainda assim, essa liberdade era controlada e enquadrada pelos valores da comunidade, funcionando a feira como um espaço seguro de sociabilidade juvenil, «onde muitos namoricos se iniciavam» e, não raras vezes, «evoluíam» para compromissos mais duradouros.

Com o passar do tempo, a emigração, a transformação dos modos de vida e o declínio das feiras tradicionais conduziram ao desaparecimento da “Feira dos Poses” ao longo do século XX.

Com a edição deste ano, ACR de Carvalho está a procurar a sua reabilitação de forma sustentada, para que permaneça como testemunho de «criatividade social» e de «uma forma delicada e simbólica de estabelecer relações humanas», revelando como, em contextos simples, se construíam rituais ricos em significado e identidade cultural.

O que é a “estronçada”?

Quanto à estronçada – que António Marinho quer recuperar como prato oficial da região, eventualmente «através de uma “confraria”» – é uma das propostas mais representativas da região de Basto, refletindo uma cozinha profundamente ligada à terra, à escassez e ao aproveitamento integral dos alimentos.

De origem humilde, este prato tradicional esteve durante gerações associado à alimentação quotidiana das populações rurais, funcionando como refeição principal ou acompanhamento substancial em contextos de trabalho agrícola intenso.

Preparada à base de couve-galega, batata, broa de milho esfarelada, azeite e alho, a estronçada distinguia-se pela simplicidade dos seus ingredientes e pelo modo rústico de confeção.

Ao contrário de versões mais recentes que recorrem a enchidos fumados, a receita tradicional utilizava apenas carnes salgadas, quando existiam, refletindo práticas antigas de conservação e um acesso limitado à carne. Em muitas casas, a “estronçada” era feita exclusivamente com produtos vegetais, sendo a carne uma presença ocasional e nunca dominante.

O nome do prato – diz-se – deriva do verbo “estronçar”, que descreve o gesto de esmagar ou rasgar a couve depois de cozida, misturando-a com a broa e o azeite quente aromatizado com alho. O resultado era um preparado de textura espessa e sabor intenso, concebido para saciar e fornecer energia durante os meses mais frios do ano.

A estronçada integrou durante décadas a dieta regular das famílias da região, sobretudo no inverno, e esteve frequentemente associada aos dias da matança do porco, quando as carnes começavam a ser consumidas. Mais do que um simples prato, assumia-se como expressão de um modo de vida marcado pela autossuficiência, pela sazonalidade e pela forte ligação entre alimentação e território.

Apesar da transformação dos hábitos alimentares, a “estronçada” – em várias versões – continua a marcar presença em eventos gastronómicos e mesas familiares, surgindo também reinterpretada em contextos de restauração local. A sua persistência – que ora se propõe reabilitar – confirma o valor deste prato como património gastronómico e memória viva da identidade cultural da região.

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