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Leonor Vaz de Carvalho na Biblioteca de Mondim de Basto

Leonor Vaz de Carvalho tem patente ao público, até 6 de março, na Biblioteca Municipal de Mondim de Basto, a exposição de pintura “Por Poisos d’Águias”. Autodidata, com um percurso marcado pela relação íntima com a paisagem, a memória e o mundo rural, a artista fala ao Terras de Basto sobre a origem da coleção, o seu processo criativo e a importância de levar a arte contemporânea ao Interior.

Ana Margarida Pereira

P. “Por Poisos D’Águias”… O que significa e como surge enquanto ideia artística?

R. O título é uma citação de um dos mais belos poemas do meu pai, perdoe-me a imodéstia. É uma homenagem que lhe faço, uma vez mais, ao homem para quem as serras e as cumeadas eram a grande fonte de inspiração e onde se encontrava consigo mesmo.

P. A coleção nasce de um lugar concreto, físico ou simbólico? Há um território, uma memória ou uma paisagem que lhe esteja subjacente?

R. Há Trás-os-Montes, com certeza. A minha terra, com as memórias, as gentes e as paisagens, para onde sempre desejei voltar, depois de três décadas de ausência e saudade a viver em Lisboa.

P. O que é possível encontrar ao entrar nesta mostra: uma narrativa, um conjunto de estados de espírito, uma viagem visual?

R. Um pouco de cada. Muitas das minhas pinturas são narrativas pessoais, vivências momentâneas, encontros impactantes nos meus descaminhos pelas nossas aldeias. Encontros com olhares e expressões de vidas esquecidas, que merecem ser registadas e perpetuadas pelo que foram antes de nós.

P. O seu trabalho é descrito como estando “com um pé no abstrato e outro no representacional”. Como é que essa tensão se manifesta nestas obras?

R. O abstrato tem tanto de emocional como o representacional. Ambos resultam de um estado de espírito face a uma realidade física ou imaginária. No meu caso, o abstrato surge posteriormente, como uma tentativa de fuga do realismo excessivo, o desejo de ir além do imediato. Cito aqui o nosso poeta, que escreveu “Não quero tripular mais este planeta”, como símbolo da fuga ao seu quotidiano profissional, a advocacia.

P. Que técnicas e materiais privilegia nesta coleção?

R. Predomina o acrílico, mas exponho trabalhos em técnicas variadas: óleo, pastel seco, pastel de óleo, grafite e técnicas mistas com gesso e colagens. No “powerpoint” que apresento estão também presentes alguns trabalhos em pintura digital, uma técnica que me fascinou pela comodidade de execução e até pelo divertimento.

P. O gesto, a matéria e a cor parecem ter um papel central na sua pintura. O que vem primeiro no seu processo: a ideia ou a experimentação plástica?

R. Se pretendo registar um gesto, uma expressão ou uma ideia, isso é o mote para a pintura. Se, pelo contrário, não há uma motivação definida, vem primeiro a experimentação plástica, o recurso aos efeitos cromáticos e à improvisação.

P. A natureza surge recorrentemente no seu trabalho — paisagens, pássaros, elementos orgânicos. Que lugar ocupa a natureza na sua pintura?

R. Ocupa um lugar primordial. Se considerarmos a Natureza como o mundo rural por oposição ao mundo urbano, então eu pertenço ao primeiro e vivo mal com o segundo. A proximidade com a Natureza marcou toda a minha vida: nasci, cresci e vivo numa quinta desde que voltei. Para além das paisagens, alguns dos retratos que apresento são rostos de vidas rurais, gente com quem privei e que me deu tanto afeto.

P. No caso específico desta exposição, há uma leitura simbólica associada às águias e aos “poisos”? Ou prefere deixar essa interpretação em aberto ao observador?

R. A pergunta é muito interessante. O título tem uma grande carga simbólica e afetiva, sim, mas deixo a cada um a sua interpretação, face aos trabalhos expostos.

P. Sendo autodidata, de que forma construiu o seu percurso e a sua identidade artística?

R. Já nos meus tempos de escola me identificavam pelos rostos de bonecas que desenhava, que vim a saber fazerem ainda parte do acervo de memórias de algumas colegas de então. Lembro-me também de paisagens infantis com boas classificações, quem me dera revê-las. A pintura hibernou até à idade adulta, altura em que recomecei, em horas de lazer e com maior disponibilidade.

P. Que influências artísticas, literárias ou outras reconhece no seu trabalho?

R. Tinha 11 anos quando fiquei fascinada perante obras de grande realismo, numa visita ao Museu das Janelas Verdes, em Lisboa, pela mão da minha tia Lurdes, grande artista e responsável pela minha iniciação na pintura. A obra literária do meu pai, que alguém definiu como “um autêntico hino à Natureza”, complementou também algumas das minhas pinturas. Ilustrei o seu livro “Poemas do Solstício” e dediquei-lhe uma exposição no Museu do Abade de Baçal, em Bragança, intitulada “As Cores da Poesia”.

P. Como tem sido a experiência de participar em exposições coletivas e individuais ao longo do seu percurso?

R. Têm sido experiências muito positivas, não só pelo convívio e companheirismo, mas também pela troca de ideias e experiências na área da pintura.

P. O que significa para si apresentar esta exposição na Biblioteca de Mondim de Basto?

R. As bibliotecas são espaços de cultura por excelência, onde alunos e outros visitantes podem usufruir da tranquilidade necessária à observação e reflexão, que hoje tanto escasseiam pela ditadura das redes sociais. Para além disso, é uma oportunidade gratificante de dar a conhecer os meus trabalhos a um público que, creio, encontrará empatia com eles, contribuindo assim para enriquecer o acervo cultural da biblioteca.

P. Considera importante levar a arte contemporânea a contextos locais e fora dos grandes centros urbanos?

R. Em absoluto. É fundamental abrir horizontes ao público jovem e adulto, motivá-los para a evolução de conceitos e para a superação de preconceitos na Arte. Quantos artistas não estarão ainda nas suas “larvas”, à espera de reconhecimento?

P. Que tipo de diálogo espera estabelecer com o público de Mondim de Basto?

R. O diálogo dependerá, com certeza, das interrogações que forem feitas.

P. O que espera que o visitante leve consigo depois de ver esta exposição?

R. Que constate que a Arte, em todas as suas realizações, é a mais bela expressão da alma humana.

P. A pintura, para si, deve provocar, tranquilizar, inquietar ou simplesmente abrir espaço à contemplação?

R. A resposta está dentro de cada um de nós. No meu caso, pintar dá-me tranquilidade na contemplação e desafio na execução, seja de um olhar, de uma paisagem ou do imaginário.

P. Em que momento do seu percurso artístico se encontra atualmente?

R. Digamos que o último ano foi um período sabático. Agora, mais disponível, vou continuar.

P. Está já a trabalhar em novos projetos ou linhas de investigação artística?

R. A curto prazo, sim: associar alguns dos meus trabalhos a mais uma apresentação da obra literária do meu pai.

P. Que desafios se colocam hoje a quem faz pintura contemporânea em Portugal?

R. Um dos grandes desafios é passar a mensagem da obra de arte, devido à iliteracia do público nessa área. Mas isso também aconteceu noutras épocas, em que pintores mais aventureiros só tardiamente foram reconhecidos e valorizados.

P. Que convite gostaria de deixar aos leitores do Terras de Basto?

R. Juntem-se a nós nesta exposição, num percurso revivalista por terras e gentes da nossa terra.

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