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Fernando Fevereiro distinguido pelos rotários

Distinção rotária reconhece um percurso profissional marcado pela educação, pelo serviço à comunidade e por uma ligação profunda às Terras de Basto, num momento vivido com emoção por colegas, alunos e família.

Por Ana Margarida Pereira

São quase quatro décadas de dedicação à Escola Profissional Agrícola de Fermil de Basto e à formação de gerações de jovens da região. Foi isto que o Rotary Club de Celorico de Basto quis relevar ao considerar Fernando Eduardo Fevereiro como o profissional do ano. À cerimónia, com jantar num restaurante celoricense, associaram-se membros do clube, professores, familiares, antigos colegas e alunos. A anteceder as intervenções da noite, foi projetado um vídeo biográfico sobre o homenageado.

O presidente dos rotários celoricenses justificou então que a distinção procurava «elogiar, enaltecer e fazer o reconhecimento público daquilo que a sociedade tem de melhor», defendendo que é através do exemplo que se lidera.

Para Jorge Reis, Fernando Fevereiro representa valores como «a resiliência, a ética e a verticalidade», num percurso que considera exemplar, sobretudo num território do Interior, onde «há menos oportunidades e menos exemplos visíveis».

A escolha deste homenageado surge – disse – num momento simbólico do seu percurso, a poucos meses da aposentação, depois de um contributo continuado para a comunidade educativa e para projetos como o “Rota Educa”, uma das iniciativas estruturantes do clube celoricense, com impacto também fora do país, designadamente em São Tomé e Príncipe.

Esta homenagem – sublinhou – afirma também o papel central da educação e da formação profissional no desenvolvimento do território, em linha com uma das áreas de enfoque do “Rotary Internacional”.

Enquanto a biografia de Fevereiro era projetada, iam sendo traçadas igualmente as linhas de uma vida marcada pela migração, pelo trabalho e pela persistência. Nascido em Luanda, em 1958, Fernando Fevereiro regressou ainda criança a Portugal, viveu novamente em Angola até 1975 e voltou definitivamente ao país no dia em que completou 17 anos. Em Torre de Moncorvo, conciliou desde cedo os estudos com trabalhos agrícolas e na construção civil, num percurso em que a responsabilidade familiar e o esforço pessoal foram constantes.

Mais tarde, já no Porto, trabalhou, entre outras funções, como porteiro no “Jornal de Notícias”, enquanto concluía o ensino secundário. Cumpriu o serviço militar e ingressou na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde se formou em Engenharia Florestal, sempre conciliando a vida académica com o trabalho. Em 1988, iniciou funções na então Escola Agrícola de Fermil de Basto – a que hoje foi acrescentado o nome de um dos fundadores, Silva Nunes –, instituição à qual ficaria ligado durante quase quatro décadas.

Primeiro como professor e depois, durante mais de três décadas, em funções de direção e gestão, Fernando Fevereiro tornou-se uma figura central da escola e da comunidade educativa, tendo o seu percurso ficado marcado, não apenas pelo rigor técnico, mas também por «uma forte dimensão humana, reconhecida por sucessivas gerações de alunos».

Nas palavras proferidas após a entrega de um diploma, o homenageado começou por assumir a surpresa com a distinção. «Achei que não merecia», confessou, sublinhando, no entanto, o orgulho de receber uma homenagem que entende não como pessoal, mas como coletiva. «Este reconhecimento pertence aos alunos, aos colegas professores, aos funcionários e à minha família», afirmou.

Destacou a ideia de que a escola «não é uma ilha», mas uma parte viva da comunidade, elogiando o papel do Rotary Club como «um farol de ética e ação». Recordou, em particular, o trabalho desenvolvido com alunos oriundos dos PALOP, nomeadamente de São Tomé, e o reconhecimento do mérito escolar no concelho, exemplos concretos de uma parceria implícita entre escola e sociedade civil.

Ao longo do seu percurso, houve também momentos particularmente difíceis.

Em conversa com o Terras de Basto, já no final da noite, o homenageado referiu-se também a momentos difíceis deste percurso público, designadamente as quatro mortes que marcaram profundamente a comunidade escolar: dois alunos e dois antigos diretores. «Foram situações muito difíceis de ultrapassar», disse, sublinhando o impacto humano dessas perdas e a exigência acrescida que colocaram à liderança do estabelecimento.

Sobre a sua fixação na região, foi perentório: «a melhor coisa do mundo; foram as Terras de Basto que me ensinaram a ser assim». Para o homenageado, existe uma continuidade natural entre a sua terra de origem e aquela onde tem feito a sua vida, ambas marcadas por valores de proximidade, trabalho e sentido comunitário.

A filosofia de liderança que procurou afirmar resume-se, segundo as suas palavras, a «dar razão aos alunos» e trabalhar com eles de forma clara, pragmática e educativa. Uma visão que se reflete na forma como encara o ensino profissional agrícola, que considera essencial para valorizar o mundo rural, criar oportunidades e reforçar a identidade. «Ter uma ligação à agricultura é ser português, é ser do povo», verbalizou.

No seu discurso, Fevereiro insistiu na ideia de que nada se constrói sozinho. «Sozinhos, não podemos fazer nada», disse, defendendo o trabalho coletivo como base do desenvolvimento dos jovens e das instituições. Dedicou simbolicamente a homenagem «a todos aqueles que trabalham na educação», reconhecendo o papel muitas vezes silencioso, mas decisivo, de professores e funcionários.

O momento mais descontraído da noite surgiu com a entrega das ofertas. Depois do diploma, foi oferecida ao homenageado uma almofada do Benfica, isto a um portista confesso, provocando sorrisos na sala. Logo de seguida, o gesto simbólico deu lugar a uma surpresa maior: uma camisola do FC do Porto autografada por todo o plantel, que foi recebida com emoção e agradecimento.

A cerimónia incluiu ainda um breve momento musical e vários testemunhos espontâneos de antigos colegas, alunos e familiares, que reforçaram a imagem de um professor exigente, mas atento, de um diretor rigoroso, mas humano, e de um homem profundamente ligado às pessoas com quem trabalhou.

Para o dirigente rotário, esta distinção pretende também lançar um sinal à comunidade: «que continuemos a seguir os valores e os padrões sociais mais elevados», disse, defendendo o papel dos rotários como agentes cívicos e humanistas.

Quando a sala começava a esvaziar-se, Fernando Fevereiro deixava uma última reflexão sobre o futuro. Para o ensino profissional agrícola, defende a necessidade de continuar a mostrar aos jovens que existem «outras saídas e outras formas de estar na vida». Quanto à escola e aos jovens das Terras de Basto, expressou confiança: «teremos, com certeza absoluta, grandes homens e grandes mulheres».

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