Diz o ditado popular que “no Carnaval ninguém leva a mal”. É uma frase que ouvimos todos, como se, durante estes dias, houvesse uma licença especial ou amnistia para virar o mundo do avesso. Colocamos uma máscara e, de repente, sentimo-nos protegidos para dizer o que sentimos e pensamos, sem que alguém leve a mal.
Certo é que, no dia a dia, todos usamos máscaras que não se vêem: o cargo que ocupamos, a imagem que projetamos e queremos manter, as defesas que criamos para não mostrar as nossas feridas. “Vícios privados, públicas virtudes”.
No Carnaval, trocamos essas máscaras invisíveis por um disfarce feito de cartão ou plástico e, curiosamente, é atrás dessa “mentira” que nos atrevemos a dizer as maiores verdades. “Ridendo castigat mores” é a essência da sátira, difundida por Gil Vicente: o “ninguém leva a mal” que nos permite criticar o que está errado, rir das injustiças e denunciar os defeitos da sociedade sem medo de castigo. A máscara dá-nos a coragem de sermos honestos através da brincadeira, castigando comportamentos com o riso.
No entanto, este tempo de anonimato, de folia e de banquete tem um fim marcado no calendário. Quando entra a Quarta-feira de Cinzas, a máscara cai, a música pára e a mesa da carne esvazia-se. É o fim desta trégua social. Já não se pode dizer que “é a brincar”. Entramos na Quaresma, um tempo que se levanta sobre três pilares essenciais: o Jejum, a Oração e a Esmola.
O Jejum não é apenas uma tradição antiga ou uma dieta religiosa; é um modo de dizermos ao nosso corpo que a alma também tem fome de algo mais profundo. Ao sermos mais contidos na alimentação e nos prazeres, estamos a cuidar do nosso caminho interior. É um exercício de despojamento que nos recorda que somos dignos, não pelo que consumimos, mas por aquilo que somos na nossa essência mais simples.
A Oração surge como o diálogo que substitui o barulho e a folia. Se no Carnaval gritamos para fora, na Quaresma falamos para dentro e para o Alto. É o momento de tirarmos a máscara diante de Deus. Na oração, não há disfarce que resista, pois somos obrigados a ser autênticos, a reconhecer as nossas fragilidades e a procurar uma força que não vem de nós, mas que nos sustenta.
Finalmente, a Esmola, ou a caridade: se o Carnaval é, muitas vezes, o tempo do “eu”, do meu prazer e da minha diversão, a Quaresma obriga-nos a olhar para o “outro”. A esmola é o gesto que quebra o nosso egoísmo e que nos lembra que não somos ilhas. A caridade limpa o nosso coração da indiferença e prepara-nos para ver o próximo sem as máscaras do preconceito ou da distância social.
Nas Cinzas, ouvimos aquelas frases que nos acordam do sono da ilusão: “Lembra-te que és pó” e “Arrepende-te e acredita no Evangelho”. É o fim do fingimento. É o momento em que aceitamos que, por baixo do disfarce, somos todos iguais, frágeis e humanos. Deus não fala com máscaras, mas procura o nosso rosto verdadeiro, como procurou Adão e Eva no Éden.
“Para quê todo este esforço?”, podemos perguntar-nos. Para quê tirar as máscaras e filtros, fechando a mão aos excessos? O que é que sobra no fim?
O desafio é que o rosto que aparece no final destes quarenta dias de caminho não seja apenas um rosto cansado de quem cumpriu uma obrigação, mas um rosto transformado por uma Luz nova. Para quem vive a Quaresma com entrega, o rosto que surge no final, depois da disciplina do jejum, da intimidade da oração e da generosidade da esmola, é o rosto de Jesus Cristo ressuscitado. Tiramos a máscara da vaidade e deixamos de lado o peso da carne para que a imagem de Deus possa, finalmente, brilhar em nós.
A caminhada das Cinzas até à Páscoa é o processo de deixar morrer o homem “mascarado” para que se vislumbre o rosto do Homem novo, Jesus Ressuscitado, que os seus amigos apenas reconheceram pelos gestos e pela Palavra; não pela aparência.
Na Páscoa, o sacrifício e a verdade dão lugar à Vida, porque a nossa verdadeira identidade não é a personagem que inventamos na terça-feira de Carnaval, mas a semelhança com Cristo que recuperamos quando temos a coragem de ser, simplesmente, humanos, autênticos e cheios de esperança.






