Segunda-feira, Fevereiro 23, 2026
spot_imgspot_img

Top da Semana

spot_img

Related Posts

O costume

[Para um ficcionista, pelo menos para mim, é extremamente difícil escrever textos correntes e “naturalistas” sobre a realidade, ainda para mais com um fundo político, matéria que não me desperta qualquer apetência. Essa asserção política, mesmo tratada de forma ténue, provoca-me embaraço, por não ser de todo a minha motivação].

                                                                      *

Habituámo-nos a ver o que acontece no País e no Mundo através da colorida e estimulante janela aberta que é um ecrã da televisão. Passámos a formular juízos de valor, tomadas de posição, fundamentação de argumentos ou apropriação da realidade, com destaque para a política, tantas vezes pelo que nos é informado através das imagens televisionadas, que tingem os nossos olhos com a factualidade que é captada e divulgada em imagens e palavras pelas televisões.

Este processo de acedermos em tempo real ao que se passa através das reportagens em direto é hoje comum em qualquer cadeia televisiva, principalmente quando se trata de transmitir grandes acontecimentos.

É um processo viciante que nos transforma em cidadãos teledependentes, como se estivéssemos na presença das gentes e no centro dos acontecimentos. Há hoje uma profusão de informação que nos é dada, tanto pelas imagens reais dos locais onde a ação se passa, como pelas palavras dos envolvidos e, sobretudo, pela possibilidade de ouvir as pessoas, através de entrevistas a que assistimos – em direto e a cores – e aos estados de alma revelados, aos desabafos sentidos e sofridos, às situações de revolta, de lágrimas e de desespero pela vivência e persistência com que a vida daquelas gentes é marcada pelo desespero.

                                                              *

Os incêndios têm vindo a arrasar anualmente áreas significativas do país, num fatalismo cíclico que se abate sobre gente resignada que aparenta já ter aceite a fatalidade dos fogos. Este clima de aceitação é uma evidência nas autoridades, governos, proteção civil, bombeiros e outros…

Os desastres climatéricos só esparsamente têm tido resultados catastróficos entre nós. Talvez por isso, não têm merecido a devida atenção da complexa teia de autoridades com responsabilidades no planeamento, execução, monitorização e fiscalização do edificado, sejam casas, bairros, vias de comunicação, telecomunicações, estradas e autoestradas, linhas de caminho-de-ferro e todos os sistemas de apoio à vida dos cidadãos, empresas e outras entidades.

Ainda estamos debaixo do efeito das alarmantes e devastadoras tempestades que, batizadas com diferentes nomes masculinos e femininos, passaram por cá deixando um tenebroso rasto de destruição apocalítica.

A região de Leiria, arrasada por uma tempestade pouco habitual em termos climatéricos, com ventos de elevada força destruidora e chuvas torrenciais; Coimbra, a braços com as cheias do século; os rios Tejo, Douro, Lima, Sado ou Guadiana, com cheias que extravasaram as suas margens e provocaram cheias impressionantes, com necessidade de deslocar habitantes para zonas seguras em operações de grande escala…

Todos estes acontecimentos, e muitos outros que não referimos, foram narrados em palavras e imagens pelas televisões, que, à semelhança da época dos incêndios, nos deram, em imagens pouco habituais, a representação real do país, da província, do interior, de um país invisível que só aparece e só dá a cara quando arrastado para situações de catástrofe.

Somos chocados com uma alarmante falta de planeamento, construindo-se desreguladamente em leitos de cheia, linhas de água, encostas e taludes, estradas projetadas em encostas inseguras; ausência de sistemas de escoamento de águas pluviais; ribeiras que atravessam zonas habitacionais com encaixe insuficiente; construção de casas, armazéns, estufas, empresas; supermercados com coberturas sem resistência; telhados, postes de iluminação e de transporte de energia, bem como árvores, algumas centenárias, sem o devido acompanhamento e conservação.

Choca-nos particularmente o estoicismo, a capacidade de sofrimento, a coragem das gentes, a sua luta contra a adversidade, o seu conformismo e a timidez com que pedem ajuda ao Estado, essa entidade mítica, resguardada pela distância e afastamento.

Estes acidentes climáticos, principalmente a sua conjugação no tempo, a violência e a duração que tiveram, vieram pôr a nu a impreparação, a inércia, o descuido e a tardia resposta do Governo, demonstrando que, provavelmente, não valorizou as previsões, os avisos e os alertas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Esse descuido, que se materializou no pungente, degradante e lamentável espetáculo que a senhora Ministra da Administração Interna deu ao país. Aliás, a nomeação para um ministério de elevada exposição ao risco como este exige ao titular, além de conhecimentos técnicos, disponibilidade para ir frequentemente ao terreno, capacidade de decisão e assertividade no trato com as povoações…

Porém, justo é dizer que, se o Governo falhou e deu uma demonstração de desorientação e de resposta tardia aos dramáticos acontecimentos climáticos, o Poder Local, com destaque para os presidentes dos municípios de Leiria, Alcácer do Sal, Coimbra ou Almada, entre outros, revelaram um notável sentido de coragem, serenidade, assertividade e disponibilidade na defesa das suas populações.

De todas as formas, o Governo centrou, inicialmente, a sua ação em encontrar soluções financeiras de suporte à crise, principalmente para as empresas e para a agricultura, o que só o futuro confirmará se foram acertadas, principalmente se não houver excesso de “déficit” e um drástico aumento dos preços, agravando a crise já existente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Popular Articles