Segunda-feira, Fevereiro 23, 2026
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À beira do precipício climático?

Portugal tem vivido semanas difíceis. Uma sucessão de tempestades – Kristin, Leonardo, Marta e outras frentes de mau tempo – têm varrido o país com chuvas torrenciais, ventos violentos, inundações devastadoras e ondas gigantes no litoral atlântico. As notícias são todas demasiado semelhantes: estradas cortadas, casas submersas, milhares desalojados e dezenas de mortos e feridos.

O que está em causa não é apenas um episódio meteorológico excecional, mas a forma como Portugal e a Península Ibérica estão vulneráveis às mudanças climáticas, e como ainda não se prepararam adequadamente para as consequências.

Há poucas décadas, era raro um país mediterrânico sofrer tantas tempestades nomeadas em tão curto espaço de tempo. A tempestade “Kristin”, por exemplo, trouxe, para muitas regiões, rajadas de vento sem precedentes, causando milhares de incidentes e deixando um rasto de destruição, com centenas de milhares de famílias sem eletricidade e vários mortos diretamente atribuídos ao evento.

Depois veio “Leonardo”, seguida de “Marta”, cada uma agravando o impacto da anterior. Em Coimbra, parte de uma das principais autoestradas do país colapsou; na região centro, milhares tiveram de ser evacuados à pressa para escapar aos rios que não paravam de subir. E nós, pelas Terras de Basto, temos assistido à deslocação de massas, como agora se chamam as “quebradas”, como não há memória.

É difícil não sentir que isto já vai muito além do acaso climático, estamos perante um padrão.

O mais preocupante não é apenas o aumento da frequência dos fenómenos extremos, mas a forma como as nossas cidades e vilas, infraestruturas e políticas públicas ainda parecem despreparadas para lidar com eles. Especialistas em urbanismo e ambiente apontam para erros claros no planeamento territorial: áreas vulneráveis continuam a ser ocupadas, o solo está demasiado impermeabilizado e faltam sistemas eficazes de retenção e drenagem de água.

Quando planeamos e construímos como se a natureza fosse sempre maleável às nossas vontades, esquecemo-nos de que a natureza muda conforme o clima muda. O resultado é que as tempestades – inevitáveis numa era de clima instável – tornam-se mais mortíferas e mais destrutivas.

A tempestade não escolhe partido. No entanto, o modo como lhe respondemos é uma escolha política. A pressão pública crescente por uma resposta mais eficaz levou mesmo à demissão da Ministra da Administração Interna, um sinal claro de que a população não está satisfeita com a forma como o Governo tem gerido a crise.

É legítimo exigir melhores planos de emergência, infraestruturas reforçadas, políticas de ordenamento mais sustentáveis e investimento em resiliência climática. Mas isso exige uma visão de longo prazo que ainda parece faltar em muitos círculos decisórios.

As tempestades que têm assolado Portugal não são eventos isolados que desaparecerão quando a chuva passar. Elas são sintomas de uma transformação climática em curso, que exigem respostas sociais, políticas e económicas à altura do desafio.

Se aprendermos alguma coisa com esta vaga de tempestades, que seja isto: adaptar-nos já não é uma opção, é uma necessidade urgente. E fazê-lo de maneira justa, sustentável e resiliente pode ser o legado mais importante para deixarmos às gerações futuras.

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