Sexta-feira, Abril 24, 2026
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E, contudo, a Terra move-se.

Domingos Machado

Doutor em Ciências da Educação

Existem múltiplas tentativas explicativas para caracterizar a nossa contemporaneidade, mas todas se situam, por definição, entre o optimismo irritante e o pessimismo de sempre. Uma coisa parece ser certa: o ser humano é por natureza, com as devidas e autenticadas excepções, inquieto, insatisfeito e muitas vezes incapaz de conviver de uma forma harmoniosa com os outros que, como a seu tempo afirmou o filósofo francês Jean-Paul Sartre, são o inferno.

E se há uma certeza que podemos constatar é a de que não aprendemos com a história nem com o passado, defendendo garbosamente, a cada geração, os atos impensados que nos colocam a um passo do declínio e do precipício existenciais.

Os exemplos no século XX, do qual saímos há brevíssimo tempo, são excruciantes, apenas para lidarmos com uma memória individual e colectiva que, em grande parte, ainda presenciámos.

Desde logo, os impérios coloniais, com destacado realce para o denominado Congo Belga e o seu cortejo de atrocidades, em nome de um pretenso bem comum. A 1.ª e a 2.ª guerras mundiais, desde as tenebrosas trincheiras que equivaliam à ténue fronteira entre a vida e a morte ao holocausto atómico de Hiroxima e Nagasáqui; os totalitarismos nazi e estalinista, em que o terror instaurado fez esquecer as linhas de separação ideológica; o maoísmo chinês e o seu sistema penal concentracionário; a Guerra da Coreia que culmina num paralelo 38 que separa um mesmo povo e que o torna refém de um conflito permanentemente aberto e simultaneamente infindável; o Vietname dos anos 60 e 70, imortalizado nas películas cinematográficas de Francis Coppola,  “Apocalypse Now”, ou “O Caçador”, de Michael Cimino.

Mais recentemente, já no dealbar do século XXI, as Primaveras Árabes, celebradas numa “internet” em júbilo mediático, mas que resultaram num Inverno antidemocrático. Em 2014, a invasão da Crimeia, perante o silêncio e a omissão da Europa, mas entusiasticamente celebrada pelos herdeiros da aparentemente defunta União Soviética. Em 2022, a consumação final: a invasão da Ucrânia, numa semanticamente inócua operação especial protagonizada pela Rússia imperial. A 7 de Outubro de 2023, os tambores de guerra deflagraram em Israel. Gaza passa à linha da frente, as réplicas sentem-se, agora, nestes dias que correm, no Médio Oriente, e no Golfo Pérsico, onde se entrelaçam interesses económicos profundos, enquanto Cuba espera que o todo-poderoso vizinho estenda o braço da “Pax Americana”num final que se antecipa.

E no meio desta generalizada confusão, em que ninguém se lembra do direito internacional, em que se banaliza e normaliza a violência para a resolução de conflitos internacionais, em que as Nações Unidas produzem discursos grandiloquentes e absolutamente ineficazes, este é um mundo em que há quem tente sobreviver na vã esperança de um tempo diferente e melhor, que procura, ainda, a beleza possível numa manhã de orvalho ou na contemplação – palavra tão olvidada – do doce rosto da “Pietà”,de Miguel Ângelo, ou na brancura da Igreja de Santa Maria, de Siza Vieira, em Marco de Canaveses.

E, contudo, a Terra move-se, para desfeita dos antigos e dos novos inquisidores.

Nota – Texto escrito de acordo com a antiga ortografia.

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