Rui Massena esteve agora em Celorico de Basto e regressa a Mondim de Basto dentro de dias. Em conversa com o Terras de Basto, o maestro defende que investir na Cultura é investir na qualidade-de-vida das pessoas e na fixação das comunidades.
Ana Margarida Pereira
A presença de Rui Massena na Festa do Livro de Celorico de Basto não foi apenas mais um momento na programação cultural do concelho. Foi, acima de tudo, uma afirmação de que o Interior pode – e deve – ser palco de criação, reflexão e encontro.
Pela primeira vez no concelho, o maestro trouxe o espetáculo “Parent’s House”, numa passagem que se estende também a Mondim de Basto, reforçando uma lógica de circulação cultural no território. «Os centros tornam-se centros quando promovem iniciativas como esta», afirma, sublinhando que eventos desta natureza contribuem para afirmar localidades fora dos grandes eixos urbanos como pólos culturais efetivos.
A ideia não é nova, mas ganha aqui uma formulação clara: o Interior não tem de esperar reconhecimento externo – pode construí-lo a partir de dentro.
Para Rui Massena, a cultura não é um acessório. É um instrumento estruturante. «Tem esta capacidade de olhar de novo para o território, de o recriar e renovar», explica. E é precisamente nessa dimensão que a cultura assume um papel central em territórios de menor densidade: não apenas como oferta, mas como elemento de coesão.
Num contexto em que o Interior continua a enfrentar desafios de desertificação e envelhecimento, esta leitura ganha particular relevância. A cultura surge como um “material espiritual”, nas palavras do maestro, capaz de reforçar o sentimento de pertença e de dar sentido coletivo às comunidades.
Apesar de reconhecer sinais de evolução, Massena não deixa de apontar limites ao processo de descentralização cultural em Portugal. «Há ainda um teto mental», refere, apontando diretamente às lideranças políticas.
O investimento, diz, tem sido muitas vezes canalizado para infraestruturas – auditórios, equipamentos… — mas falta dar o passo seguinte: programação consistente, políticas culturais ativas e envolvimento das populações.
Questionado sobre o impacto de iniciativas como a Festa do Livro, Massena recusa leituras imediatistas. O efeito pode não ser visível no curto prazo, admite, mas existe. «É uma semente», diz.
Essa semente pode estar no primeiro contacto de um jovem com um livro, com uma ideia ou com um espetáculo. Pode estar, também, na capacidade de despertar novas formas de olhar o mundo.
Num território onde o acesso à oferta cultural nem sempre é contínuo, estes momentos ganham uma dimensão particular: são portas de entrada.
Se há ponto em que o maestro é taxativo, é na importância da formação. As academias de música, como a de Basto, têm – sublinha – um papel «determinante». Mais do que formar músicos, ajudam a revelar sensibilidades, a criar espaço para a expressão individual e a construir comunidades mais abertas e diversas. «Na música, muitos jovens encontram o seu bem-estar», sublinha.
A esta base juntam-se as estruturas locais – bandas filarmónicas, grupos de teatro, associações… – que, no terreno, vão garantindo continuidade. São elas que sustentam o ecossistema cultural e que transformam iniciativas pontuais em prática regular.
Público mais próximo,
território mais humano
Há ainda uma dimensão menos visível, mas não menos relevante: a relação com o público. No Interior, diz Massena, essa relação tende a ser mais próxima, mais direta. «São territórios mais humanizados», descreve. No palco, essa proximidade traduz-se numa experiência diferente – mais íntima, mais partilhada. É também aqui que a cultura revela uma das suas forças menos quantificáveis: a capacidade de criar ligação.
Quanto ao suporte financeiro, a resposta surge sem hesitação no que toca a políticas culturais e financiamento: «faltam orçamentos mais robustos», afirma.
Mas não só. Falta também criar condições para fixar quem produz cultura. Para que músicos, artistas e criadores possam viver no território – e não apenas passar por ele.
A ideia é simples, mas exigente: transformar o Interior num espaço onde a cultura não seja episódica, mas estrutural.
No final, a síntese é clara: «Não existem sociedades desenvolvidas sem cultura». Num tempo em que muitas comunidades lutam pela sobrevivência, a cultura surge aqui como algo mais do que um complemento. Surge como condição de desenvolvimento.
Porque, como lembra Rui Massena, «a vida não pode ser apenas um ato de sobrevivência». Deve ser também – e sobretudo – um espaço de construção, de pensamento e de sentido.






