Terça-feira, Março 24, 2026
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O triângulo virtuoso: da feira à festa do livro

Afonso Valente Batista

Assessor para a Cultura no Município de Celorico de Basto

O triângulo virtuoso a que o título se refere é aquele que é composto em cada um dos seus vértices pelo escritor, o livro e o leitor. No espaço central do triângulo podemos colocar/imaginar o local onde se dá o encontro destas entidades – escritor, livro, leitor – uma espécie de sortilégio encantatório.

— É o espaço onde o encantamento da escrita pode tornar-se realidade e acontecer felicidade, satisfação e identificação;

 — É o espaço transcendente onde os três atores se encontram no mesmo lugar e no mesmo tempo. No espaço e tempo em que acontece a virtude do escritor “dar” ao leitor o que escreveu através do livro e porque o escreveu e como o escreveu.

— É o espaço em que o livro se torna matéria viva, objeto com significado e que todo o trabalho que ali está encadernado faz sentido. Trabalho que “diz” ao leitor tudo o que o autor quer dizer, com a vantagem para ele, leitor, ir tomando conhecimento do que é escrito no tempo do seu entendimento, vontade de ler e interesse no diálogo com o escritor.

— É o espaço onde o leitor vai tomar contacto com o que o escritor disse. É o momento, circunstancialmente mais importante, o momento sagrado em que se dá a transferência do que o escritor escreveu para o leitor.

— É, finalmente, o momento da verdade e do encerramento do ciclo de ouro. Um e outro, escritor e leitor, estão, finalmente, frente-a-frente, mediando esse contacto através do livro. Sagra-se, finalmente, nesse momento, a importância de continuar a haver livros de papel encadernado, pese embora todos os esforços de promoção do “e-book”.

Futuro? Haverá livros?

O livro é um objeto de culto que transmite conteúdos, conta estórias, narra factos reais, transmite conhecimentos, institui regras, apresenta postulados e, objeto que é, transitável de mão em mão, o leitor poder apropriar-se do que o escritor quis dizer-lhe e guardá-lo, para mais tarde poder ser relembrado o que diz quando o leitor necessitar, porque o livro não é material perecível. Pode guardar-se e estar pronto a saltar do lugar onde o arrumou para dialogar com outro e outro e outro leitor, através do empréstimo ou da partilha. Esta última é a missão reservada às bibliotecas, que não devem ser depósito ou cemitério onde arrumamos os livros. As bibliotecas têm a sagrada missão de pôr livros à disposição dos leitores, tantos quantos o leitor encontre na sua leitura o encanto de aprender, saber e conhecer.

Mesmo que muitos não se convençam e achem desnecessário o livro, continuamos a acreditar na magia encantatória da escrita, da leitura como da música, da pintura da escultura; das artes.

E reparem nesta palavra – artes – tão vilipendiada por detratores de todos os matizes ideológicos e dessas classes sociais que estigmatizam o saber dos outros. O saber, através dos livros sempre foi revolucionário. Por isso Hitler mandou queimá-los e Salazar mandou censurá-los.

                                                           *

Historicamente, as artes nasceram paredes meias com os ofícios. Artes e ofícios era o que se dizia, porque, tanto uma como a outra, eram atividades invulgares, menos habituais e que exigiam habilidades, saberes e conhecimentos próprios para se desempenharem.

Entretanto, os ofícios foram desaparecendo por força da industrialização e as artes, remetidas para um nicho de restrição, acabariam por continuar a existir em nichos muito precisos. Falamos nisto para desmontar que as artes não são coisa erudita, só acessível a alguns. Ainda há bem pouco tempo se chamava a um sapateiro, cantoneiro, pintor ou marceneiro um “artista”. 

Escrever livros é a mesma coisa. Parece coisa reservada a iluminados. Nada disso, somos pessoas tão normais que apenas temos um pouco mais de jeito, de habilidade, de saber, de paciência e de amor para escrever, por exemplo.

É isto o que acontece com os livros e com os escritores. Gente normal que faz coisas normais.

Só por destreza da avidez é que os poderosos, hoje em dia, fazem do saber um instrumento de poder. Por isso, marginalizam os livros, encarecem-nos e dizem que ler é só para intelectuais. Nada mais falso. Se pensarmos que ao nível da população mundial, o número do analfabetismo é gritante, encontramos matéria para envergonhar o mais calmo habitante desta terra.

Imagine, num mero segundo, que já pensou na triste infelicidade que é ser analfabeto, não saber ler e não saber escrever? Avalie, se faz favor, e guarde o resultado para si.

Podemos estar entendidos com o objetivo de que vamos vencer a batalha de ler, pelo menos, um livro por ano? É um objetivo tão pouco exigente. Só um livro!

                                                             *

É isso que durante estes anos temos vindo a fazer, removendo um coro de dificuldades em que a inércia e a indiferença são autênticas rochas megalíticas inamovíveis. No sentido de dar um conceito mais alargado à função do livro, passámos a chamar “Festa do Livro”, tentando associá-lo a outras formas de expressão artística, como a música, a pintura, a fotografia e, este ano, o cinema e o teatro.

A promoção de eventos culturais como o Prémio de Poesia e os Colóquios sobre Camões e Camilo, dois sucessos de organização e da qualidade dos temas tratados. O Prémio de Poesia, que vai na sua terceira edição, teve este ano uma concorrência recorde, com mais de novecentos poemas enviados a concurso. A avaliar pelo agrado da iniciativa, mostra ser este o caminho e que, afinal, há públicos para iniciativas mais exigentes.

É de elementar justiça afirmar que o sucesso destas realizações tem o aval do Senhor Presidente, Dr. Peixoto Lima, e da Senhora Vereadora da Cultura, Dr.ª Maria José Marinho, e o trabalho da Dr.ª Maria de Fátima Cunha, Diretora da Biblioteca Municipal, e da sua dedicada equipa.

Como nota final, deixem-me dizer-lhes que temos vindo a trabalhar com o CITCEM-Norte para que, em setembro/outubro, se realize em Celorico de Basto o “Congresso Internacional de Literatura”, de Escritores Portugueses e Estrangeiros, que envolverá cerca de trezentos participantes. A proposta para esta realização só foi possível graças à reconhecida competência e qualidade na organização dos eventos sobre os “500 Anos do Nascimento de Camões” e do “Bicentenário do Nascimento de Camilo Castelo Branco”.

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