Sexta-feira, Maio 22, 2026
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Os melhores dos melhores vêm debater em Basto

Marília Montenegro e Gonçalo Teixeira, da Universidade do Porto, lideram a organização do “European Round Robin 2026” que acontece nos últimos dias de maio em Cabeceiras de Basto. Em conversa com o Terras de Basto, explicam o conceito e por que este debate competitivo se assume como «um torneio muito especial», em que «todas as equipas debatem contra todas». «Dificilmente se consegue um torneio tão difícil de vencer como este», sublinham.

João Paulo Mesquita

P. Comecemos por explicar o que é o debate competitivo…

R. O debate competitivo é, essencialmente, um desporto da palavra. Em vez de jogarmos com uma bola de futebol e chuteiras, jogamos com argumentos e palavras. São quatro equipas, duas a favor e duas contra, em que as posições são sorteadas apenas 15 minutos antes do debate começar. Cada equipa é formada por duas pessoas e tem exatamente esses 15 minutos para preparar os seus argumentos, apenas a conversar uma com a outra, sem acesso à internet. É nessa pressão que nasce a magia.

P. Contextualize-nos, por favor? Como começou tudo isto, sabe?

R. A história do debate é longa e os registos são, infelizmente, bastante escassos. No entanto, sabe-se que o modelo que utilizamos, o mais popular a nível mundial, o modelo do Parlamento Britânico, tem as suas origens nas grandes universidades britânicas, algures no século XIX. Em Portugal, a popularização do debate competitivo universitário começou por volta de 2010, na Universidade do Porto.

P. Quem participa habitualmente? É exclusivo de estudantes universitários? Que organização tem? Há clubes?…

R. A grande maioria dos participantes, pelo menos em Portugal, são estudantes universitários que participam em debates semanais e em torneios organizados pelas várias sociedades de debate existentes em universidades portuguesas e internacionais. Noutros países, a participação de estudantes do ensino secundário é já muito mais comum, e isto é algo que queremos ativamente fomentar também em Portugal. Há muito potencial por explorar!

P. Além da Sociedade de Debates da Universidade do Porto, há coletivos semelhantes pelo país? Quais, por exemplo? Quem se destaca pela dinâmica?

R. Este evento é organizado com o apoio da Sociedade de Debates da Universidade do Porto (SdDUP) e do Conselho Nacional de Debates Universitários (CNADU), mas estas não são as únicas estruturas dedicadas ao debate competitivo em Portugal. O CNADU funciona precisamente como um fórum que reúne as várias sociedades de debate existentes em universidades de todo o país, nomeadamente no Porto, Lisboa, Católica do Porto, Minho, Coimbra, Nova e, mais recentemente, Évora, Católica de Lisboa e Beira do Interior. A SdDUP é a mais antiga e destaca-se por ser a única a já ter conquistado um campeonato mundial, mas todas participam regularmente em torneios em Portugal e no estrangeiro. A atual campeã nacional é, aliás, a Universidade do Minho!

P. Marília, qual é a intenção? O que se pretende com estes debates competitivos?

R. O objetivo é criar cidadãos envolvidos e conscientes do seu impacto no mundo, através da discussão saudável e estruturada dos mais variados temas. Para além disso, pretendemos cultivar o gosto pela oratória e pela palavra, contribuindo para o desenvolvimento de competências cada vez mais necessárias num mercado de trabalho e num contexto social que exigem pensamento crítico e participação ativa.

P. Como funciona, no contexto nacional e internacional, este “campeonato de debates”?

R. De forma breve: várias equipas defrontam-se ao longo de uma série de rondas preliminares, normalmente cinco, onde são colocadas de forma aleatória a defender ou a opor-se a vários temas. As equipas acumulam pontos consoante a sua classificação em cada ronda: 3 pontos para o primeiro lugar, 2 para o segundo, 1 para o terceiro e 0 para o quarto. No final das rondas preliminares, as melhores equipas avançam para as fases eliminatórias, onde competem pelo título de vencedoras. No “Round Robin”, em específico, o formato é diferente: todas as equipas debatem contra todas as outras exatamente uma vez e as quatro equipas com mais pontos no final disputam a grande final.

P. O que debatem? Quais os temas mais vulgarmente glosados?…

R. Debatemos um pouco sobre tudo! Se um tema tem bons argumentos a favor e contra, é provável que já o tenhamos debatido. Os debates incidem muitas vezes sobre temas como a economia, a inteligência artificial, o ambientalismo ou as redes sociais, mas não só. Os torneios costumam trazer temas em voga no dia-a-dia, pelo que é esperado que os participantes acompanhem as notícias, tanto nacionais como internacionais, e que as questionem. Mas isto transborda até para as decisões mais banais do quotidiano: se é um dilema, pode ser trazido para o debate. Por exemplo, já debatemos, com apenas três horas de diferença, se devemos manter amizades com ex-namorados e logo depois a legitimidade do Irão em fechar o Estreito de Ormuz. É mesmo assim!!!

P. Que tradição temos, nós portugueses, nestas andanças? Já assumimos algum momento que se tivesse destacado nestes debates? Com quem?

R. A história do debate competitivo em Portugal é bastante mais recente do que a nível mundial, mas isso não a deixa sem momentos de grande relevo. O mais importante aconteceu em 2013, quando uma equipa da Universidade do Porto, composta por Ary Ferreira da Cunha e Tiago Laranjeiro, se sagrou campeã mundial. Temos também o nosso torneio nacional, que acontece desde 2012 e no qual mais de 100 estudantes participam anualmente a defender o nome das suas universidades. Como todos os outros sectores, a pandemia foi um momento de rutura, mas Portugal voltou a ganhar força, tanto dentro das nossas universidades como nos torneios internacionais, com reconhecimento especial no Campeonato Europeu de 2024. É também neste período que iniciámos o regresso de torneios internacionais a Portugal, algo que só foi possível graças a Cabeceiras de Basto!

P. Fale-me então deste “European Round Robin” que trazem a Cabeceiras de Basto no final de maio. O que significa, neste contexto dos debates? Explique-nos em que difere dos “treinos” que têm trazido a Basto em anos anteriores?

R. Um “Round Robin” é um tipo de torneio muito especial. Ao contrário dos torneios normais, aqui todas as equipas debatem contra todas as outras exatamente uma vez. Isto implica que apenas 16 equipas podem participar, o que exige um processo de seleção rigoroso: só as 16 melhores chegam até aqui. É precisamente isso que lhe confere tanto prestígio. Vão ser os melhores dos melhores a debater entre si! O que empolga muito os participantes é que, por ser um torneio de seleção, sabem que vão enfrentar os melhores e que o nível de competitividade não será nada fácil. Isto traz um desafio e experiência que nenhum outro torneio consegue oferecer, pois justamente por todos eles serem pessoas reconhecidas, costumam estar em papeis de organização destes eventos e dificilmente se consegue um torneio tão difícil de vencer como este.

P. Quem vamos ter, então, a participar neste “European Round Robin” de Cabeceiras de Basto? Fale-nos de alguns nomes que vão estar cá, que se destacam…

R. Felizmente, contamos com pessoas de grande peso no circuito europeu e mundial. A começar pela organização: a Equipa Académica, responsável pela escolha dos temas e pelo julgamento dos debates, é composta por quatro pessoas com um currículo notável. A Marta, a Enting, o Teck e o Harish fizeram parte de equipas académicas de vários campeonatos mundiais e europeus, tendo estado presentes em finais e semifinais. O Harish merece destaque especial: foi convidado pela IBM para ser o primeiro humano a debater contra uma “inteligência artificial”, uma espécie de Kasparov dos debates. Quanto aos participantes, contamos com um dos atuais campeões europeus, Petar Znidar, e com algumas lendas do circuito como Milos Marjanovic, Tin Puljic, Jason Xiao e Niki Angelov, que aliás já esteve em Cabeceiras de Basto há dois anos. Muitas destas pessoas têm grande destaque nos seus países de origem, sendo algumas já nomeadas para o “Forbes Under 30”.

P. Quem organiza, afinal, este debate europeu em Portugal?

R. O “Round Robin” é organizado por uma comissão independente composta por Gonçalo Teixeira e Marília Montenegro, ambos da Universidade do Porto, e Catarina Pinto, da Universidade de Lisboa, com o apoio institucional da SdDUP e do CNADU. O Gonçalo e eu fomos também os organizadores dos “debate camps” que decorreram em Cabeceiras nos últimos anos, por isso conhecemos bem a região e a comunidade local.

P. Este encontro de Cabeceiras de Basto significa «um regresso do “Round Robin” ao calendário europeu». Explique-nos…

R. Todos os anos existe um “round robin” nos Estados Unidos, e o mesmo costumava acontecer na Europa até à pandemia. Infelizmente, com a pandemia, este evento deixou de ser organizado, e o circuito europeu anseia pelo seu regresso há já bastante tempo. No “debate camp” do ano passado, uma das participantes, Marta Vasic, ficou entusiasmada com a nossa organização e com Cabeceiras de Basto, e sugeriu-nos realizar este evento, trazendo-o assim de volta ao calendário europeu. A resposta da comunidade foi incrível: recebemos diariamente mensagens de pessoas que adorariam estar cá e, para quem não consegue vir, temos feito grandes esforços para garantir que o evento possa ser acompanhado à distância, aumentando ainda mais o impacto do evento.

P. Que razões podem levar um município, como o de Cabeceiras de Basto, ou uma empresa, a apoiar-vos nesta organização?

R. Acredito que por várias razões. Em primeiro lugar, porque é um investimento na formação académica e cívica da juventude, através de uma atividade que desenvolve o pensamento crítico, a oratória, a capacidade argumentativa e as “soft skills”. Por outro lado, é um evento com grande projeção internacional. Dada a relevância das pessoas presentes no circuito mundial, este evento pretende consolidar a imagem de Portugal como um local de excelência para a realização de eventos de debate competitivo, o que atrai não só a atenção destes jovens talentosos, mas também das suas universidades, empresas, investidores e até governos, como já ficou demonstrado em eventos semelhantes realizados anteriormente fora de Portugal.

P. Que momentos destacaria da programação destes três dias? Há alguma razão para o grande público vos ir espreitar? O quê e quando? Ah, onde? Há alguma interação com a comunidade escolar local?

R. O momento alto é claramente a final, que vai decorrer no domingo (31 de maio), pelas 12h15, na Casa do Tempo, em Cabeceiras de Basto. É o momento ideal para descobrir o que é o debate competitivo, vendo-o no seu melhor. A entrada é gratuita e todas as pessoas são mais do que bem-vindas! Para quem não puder comparecer, o evento será também transmitido em direto no canal de “YouTube” e na página de “Instagram” do evento. Mas venham ao vivo: é sempre muito mais especial sentir pessoalmente a energia contagiante destes momentos!

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