Henrique Carneiro
Mestrando do 6.º Ano de Medicina no ICBAS
Após um conturbado “25 de Abril” de 1974, marcado por agitação nas ruas e por uma mudança política profunda, na madrugada de 26 de abril, a Junta de Salvação Nacional apresenta-se nos ecrãs da RTP, dando rosto à revolução e transmitindo as primeiras mensagens aos portugueses.
O general António de Spínola lê, assim, um primeiro comunicado, assumindo os compromissos de garantir a sobrevivência da nação, permitir a expressão de todas as correntes de opinião, assegurar eleições livres por sufrágio direto para uma Assembleia Constituinte, garantir a liberdade de expressão e de pensamento, fazer respeitar a paz cívica e honrar os compromissos internacionais em vigor. A sua missão era, no fundo, implementar o programa do Movimento das Forças Armadas, que se poderia sintetizar nos chamados “três D”: Desenvolvimento, Democratização e Descolonização.
52 anos depois da data mais importante da democracia portuguesa, poderemos dizer que cumprimos Abril? A promoção da democratização e do desenvolvimento chegou a todo o país?
Façamos, então, essa reflexão. Portugal é hoje, indiscutivelmente, um país mais desenvolvido em todos os sentidos da palavra, mais livre e democrático. Contudo, “Abril” não se cumpriu verdadeiramente para todos os portugueses. As regiões do Interior continuam a sofrer com a falta de oportunidades, de acessos, de opções de mobilidade e, de um modo geral, de poder político real.
Nas Terras de Basto, encontramos um exemplo particularmente evidente desse esquecimento por parte do poder central. Em 1990, encerra-se a Linha do Tâmega, no troço entre Amarante e Arco de Baúlhe. A 1 de setembro de 2001 (sim, há 25 anos), o cabeceirense e então deputado Miguel Teixeira alerta o Governo para a necessidade absoluta de se fazer cumprir o protocolo assinado, que garantia, em caso de encerramento da linha, a construção de uma alternativa rodoviária: a Via do Tâmega. Um quarto de século depois, esta estrada continua por concluir.
A Revolução dos Cravos foi, sem dúvida, o evento mais importante da democracia portuguesa, uma das datas mais marcantes da nossa história enquanto nação e, se me permitirem o comentário, uma das revoluções mais belas da história do mundo ocidental. Depôs-se um regime opressivo, execrável, isolacionista e obsoleto. Instalou-se um regime democrático, inspirador e intrinsecamente renovador.
O aniversário desta data é, portanto, uma excelente oportunidade para refletir sobre o progresso alcançado e os desafios que ainda enfrentamos como sociedade, renovando o nosso compromisso com os ideais de liberdade, igualdade e justiça para todos.
Assim, apesar de “Abril” ter descentralizado o poder do ponto de vista político, ainda não o fez do ponto de vista territorial. Cumpriu-se na liberdade, mas continua por cumprir na coesão. Um país que, deliberadamente, desiste de metade de si próprio não é ainda plenamente democrático nem desenvolvido. O abandono sistemático do Interior não é inevitável; é uma escolha cultural e, sobretudo, política, que tem de ser combatida para, de facto, fazermos cumprir “Abril”.





