Manuel Batista Quinta
Arcipreste da Igreja Católica em Cabeceiras de Basto
Há encontros que não acontecem por acaso, mas por uma espécie de gravidade espiritual que atravessa o tempo e o espaço para nos encontrar no momento exato em que precisamos de uma nova luz. Em 2024, durante um retiro no CESM, em Barcelos, descobri pela voz do padre Adelino Ascenso um modo novo de ver e de sentir Jesus, através de Shusaku Endo, um dos maiores vultos da literatura japonesa do século XX, frequentemente apelidado de o Graham Greene do Oriente. A obra deste escritor não é apenas para ser lida, mas é sobretudo para ser habitada, como quem entra no silêncio de um mosteiro onde as sombras, por vezes, revelam muito mais do que a luz.
A ligação entre Portugal e o Japão é uma das páginas mais fascinantes e dramáticas da nossa história coletiva. Em 1543, os navegadores portugueses atracaram pela primeira vez em Tanegashima, iniciando um contacto que viria a dar origem ao chamado século cristão do Japão. Em 1549, São Francisco Xavier chegou a este território e ficou fascinado pela nobreza e pela racionalidade da cultura que encontrou, descrevendo-a em cartas como a «delícia do meu coração».
Este encontro de mundos, marcado pela troca de saberes e de culturas, é hoje resgatado com mestria na série “10 Mil Km, De Regresso ao Japão”, disponível na plataforma “RTP Play”, recordando-nos como a nossa identidade lusa se forjou também nessas praias distantes, num diálogo que mudou ambos os povos para sempre através da língua, da culinária e religião.
Quatro séculos depois, Shusaku Endo olha para o entusiasmo de São Francisco Xavier com uma melancolia que nos obriga a parar e a refletir. Para ele, o Japão não era o solo fértil que o santo espanhol descrevia com tanto encanto, mas sim um pântano, explicando com esta metáfora poderosa a enorme dificuldade do transplante de uma fé. Para ele, as raízes do cristianismo ocidental, habituadas ao solo seco, lógico e jurídico da Europa, tendiam a transfigurar-se na humidade complexa da cultura oriental e, por isso, o otimismo de 1543 deu lugar, no século XVII, a uma das perseguições religiosas mais violentas da história da Humanidade.
Os martírios executados pelo governo militar da época visavam algo muito mais profundo do que a morte física dos crentes. O objetivo era a apostasia, ou seja, a negação pública da fé através da humilhação. Inventaram-se suplícios de uma crueldade refinada, como as crucificações na maré baixa, onde o mar subia lentamente ao longo das horas até sufocar o crente que se mantinha fiel. Houve também o terrível suplício da cova, onde o torturado era suspenso de cabeça para baixo sobre um poço de excrementos.
Foi neste cenário de horror absoluto que surgiram os “kakure kirishitan”, conhecidos como os cristãos escondidos, que durante duzentos anos, sem padres, sem templos e sem exemplares da Bíblia, guardaram e celebraram a fé em segredo absoluto, rezando orações em latim e português, repetindo palavras que o tempo e o isolamento desgastaram até as tornar quase incompreensíveis aos ouvidos modernos. Eram murmúrios de sons antigos, mas que os mantinham agarrados ao mistério como o único tesouro que a tortura não lhes podia roubar e que Martin Scorsese imortalizou no filme “Silêncio”, de 2016, baseado no romance homónimo de Shusaku Endo.
É neste contexto de resistência e de pântano que Endo escreve em 1973 uma das suas obras mais marcantes, intitulada “Uma Vida de Jesus”, recentemente reeditada em Portugal pela “Dom Quixote”. Influenciado pelo espírito do Concílio Vaticano II, que procurou abrir as janelas da Igreja ao diálogo com a modernidade, o autor propõe uma visão revolucionária para o seu país e para todos nós. Em vez de enfatizar a imagem tradicional de um Deus Pai severo, juiz e transcendente, ele decidiu destacar o lado maternal de Deus. Esta escolha fazia sentido porque a mentalidade japonesa da época associava invariavelmente a figura do pai e do juiz ao poder arbitrário e punitivo dos governantes ou do imperador.
Esta escolha não foi um mero artifício literário para vender livros. Os cristãos escondidos já tinham intuído esta necessidade vital muito antes ao criarem a “Maria Kannon”. Esta era uma imagem de Nossa Senhora disfarçada de Kannon, a divindade budista da compaixão, para que pudessem rezar à Virgem sem serem descobertos pelos espiões do governo. Endo compreendeu que o ser humano, quando está no limite da sua força e da sua dignidade, precisa mais de uma figura que sofre connosco e que perdoa as nossas fraquezas: um Deus que seja como uma mãe que nunca abandona o seu filho, mesmo quando ele falha.
A sua obra não é uma biografia fria ou um manual de teologia, mas sim um texto profundamente humano, que começa com a despedida de Nazaré e a primavera na Galileia, onde a esperança parecia invencível. Depois, mergulhamos nos conflitos, na tensão com os espiões do Templo e na sensação de solidão que Jesus sente perante a incompreensão dos próprios discípulos que não entendiam a sua missão, destacando particularmente a figura trágica e complexa de Judas Iscariotes com uma compaixão invulgar, tratando-o como alguém que também se perdeu no pântano das suas próprias expectativas. Segue-se a Paixão, com a noite da prisão e a solidão absoluta no Calvário, terminando numa reflexão sobre o impacto da Ressurreição naqueles que voltaram a acreditar após terem falhado e fugido por medo.
Esta perspetiva ilumina de um modo novo o mistério que celebramos na Páscoa. Na Quinta-Feira Santa, entramos com Jesus no Jardim das Oliveiras, onde Ele não se apresenta como o herói invencível, como os do cinema, mas como alguém que sente medo, que pede companhia aos amigos e que confessa ao Pai a sua fragilidade humana. É precisamente aí, no suor de sangue e na súplica angustiada, que se revela o rosto materno de Deus apresentado por Shusaku Endo. É um Deus que não nos livra do sofrimento por decreto ou de um modo mágico, mas que decide ficar ao nosso lado, habitando a nossa dor mais profunda para que nunca estejamos sós.
No Domingo de Páscoa, Maria Madalena foi ao sepulcro e encontrou-o vazio. Chorou perdida no seu luto, e confundiu Jesus com o jardineiro. Como Endo sublinha, ela não se enganou de todo ao fazer esta confusão, pois Jesus é efetivamente o Jardineiro, aquele que se inclina sobre a nossa terra batida e seca para nos chamar pelo nome pessoalmente, pois sabe que no silêncio da terra e na escuridão da alma, a semente está a brotar para fazer surgir a vida nova onde ninguém a esperava.
Ao longo deste Tempo Pascal, na Arquidiocese de Braga, somos convidados a entrar neste “Jardim da Esperança”. É um caminho feito de flores reais e não de flores artificiais que apenas servem para enfeitar a superfície. Durante estas semanas, somos desafiados a encontrar o lírio branco da alegria que nasce da entrega total da vida. Somos chamados a ver a margarida da confiança simples na providência e o girassol da presença de Deus que nos faz orientar o rosto para a luz mesmo nos dias nublados. Devemos procurar a rosa vermelha do amor que aceita as feridas do sacrifício e a tulipa da paz profunda que o Espírito nos sopra suavemente ao coração. Estas flores não nascem de um esforço de aparência ou de “marketing religioso”, mas brotam da vida verdadeira que Cristo faz nascer onde parecia haver apenas deserto, esquecimento ou morte.
Nesta Páscoa, o convite é para dizermos não a uma fé de plástico, que parece perfeita e bonita nas molduras, mas que não tem cheiro nem qualquer contacto com a dor ou com a realidade crua da vida. Digamos sim à beleza discreta e real de quem se deixa cultivar pelo amor divino. Uma esperança verdadeira não se improvisa nem se compra com palavras fáceis, mas vive-se no quotidiano.
A alegria pascal da Ressurreição não nega a dor da Sexta-Feira Santa, mas garante-nos que a dor não tem a última palavra na nossa história. Que este tempo seja, para cada um de nós, o desabrochar daquilo que Deus já plantou em silêncio e que saibamos reconhecer o Jardineiro que nos chama para uma vida plena.
[Texto publicado na edição impressa do Terras de Basto de 2 de abril de 2026)






