Sábado, Fevereiro 21, 2026
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É preciso reconstruir a confiança

João Paulo Mesquita

Diretor

Nos dias que se seguem à fúria do mau tempo, quando as águas recuam e o vento se cala, fica sempre mais do que destruição material. Fica uma espécie de radiografia moral da comunidade. E, como em quase todas as radiografias, o que se revela é um contraste desconcertante.

De um lado, multiplicam-se os gestos que nos reconciliam com a ideia de sociedade. Voluntários que deixam o conforto das suas casas para ajudar a limpar lama, vizinhos que distribuem refeições quentes, empresas que cedem equipamentos, donativos que chegam de todo o país. Há uma energia quase instintiva que nos empurra para o outro quando o outro está em queda. É a solidariedade em estado bruto, sem cálculo nem agenda.

Mas, do outro lado, e por vezes no mesmo cenário, emergem episódios que envergonham. Contas falsas abertas em nome de famílias prejudicadas, explorando a comoção pública para angariar dinheiro. Furtos de geradores destinados a garantir luz e aquecimento a quem perdeu tudo. Roubo de combustível, justamente quando ele é mais necessário para manter lares ou simples casas habitáveis. Não se trata apenas de crimes patrimoniais; trata-se de um atentado à confiança coletiva.

Este contraponto não é novo, mas continua a surpreender. Como é possível que, perante o sofrimento evidente, alguém veja uma oportunidade? Talvez porque as catástrofes não suspendem a condição humana, apenas a amplificam. Tornam mais visível o melhor e o pior de nós.

A solidariedade espontânea prova que a coesão social não é uma abstração académica. Ela existe, manifesta-se, organiza-se rapidamente. É uma força real, capaz de reconstruir telhados e também esperanças. Já os aproveitamentos oportunistas corroem essa mesma força. Cada fraude descoberta, cada gerador roubado, lança uma sombra sobre os donativos seguintes. Instala a suspeita. Obriga à burocracia. Atrasa a ajuda.

É aqui que reside o verdadeiro dano desses atos deploráveis: não no valor monetário perdido, mas na erosão da confiança. Uma sociedade que desconfia permanentemente de quem pede ajuda é uma sociedade menos solidária e, por isso, mais frágil perante a próxima tempestade.

Ainda assim, importa não cair no cinismo. Se algo demonstram estes momentos é que os exemplos de generosidade superam largamente os de oportunismo. A indignação coletiva perante as fraudes e os furtos é, ela própria, um sinal de saúde moral. Mostra que continuamos a reconhecer o limite entre o aceitável e o inaceitável.

No rescaldo do mau tempo, reconstruir casas é urgente. Mas reconstruir, e proteger, a confiança é igualmente essencial. Porque é essa confiança que garante que, quando a próxima adversidade chegar, haverá novamente mãos estendidas. E que elas pesarão mais do que as que tentam aproveitar-se da desgraça alheia.

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