Durante muito tempo, usámos as redes sociais sem pensar muito no que estava por detrás. Eram apenas momentos da vida de outras pessoas partilhados em fotografias ou vídeos. Com o passar do tempo, essa exposição começou a ser romantizada, criando a ideia de vidas mais felizes, mais interessantes e mais bem-sucedidas do que aquelas que fazem a realidade à nossa volta.
Ainda assim, havia uma certeza: do outro lado do ecrã existia alguém real. Hoje, até essa ideia já se perdeu. No “Instagram” e no “TikTok” surgem figuras sempre perfeitas, sempre disponíveis e sempre coerentes, mas que, na prática, não existem fora do mundo digital.
Os chamados “influencers” de inteligência artificial são criados com um único objetivo: influenciar. Não têm vida própria, não erram, não improvisam. São projetos pensados ao detalhe, com alguém por detrás – que pode ser uma pessoa, uma equipa ou uma marca – entidade que decide o que dizem, o que defendem e até a imagem que apresentam. Nalguns casos, pode até ser um homem a gravar movimentos e voz, mas a imagem final é a de uma rapariga jovem e bonita, porque isso chama mais a atenção e cria mais impacto. A identidade passa a ser construída consoante aquilo que resulta melhor.
Este fenómeno não é totalmente novo, mas tem vindo a crescer. Casos como Lil Miquela mostram que é possível criar personagens digitais com milhares ou até milhões de seguidores, parcerias com marcas e uma presença constante nas redes sociais. Para as empresas, é uma solução prática, pois não há imprevistos, polémicas ou erros.
Para quem segue estes “influencers”, apesar de artificiais, a sensação acaba por ser semelhante à dos reais. Há proximidade e presença frequente, com conteúdos diários em forma de vídeos e fotografias.
É aqui que surge a dúvida. Nunca confiámos em todos os “influencers”, mas sim naqueles com quem fomos criando alguma simpatia, através do que partilhavam e da forma como se mostravam. Existia a ideia de autenticidade. Quando tudo passa a ser planeado e controlado, essa confiança começa a perder sentido.
Mais do que uma tendência digital, estes influenciadores artificiais dizem muito sobre a sociedade em que vivemos. Mostram uma procura constante pela perfeição, pela imagem ideal e pela ausência de falhas.
No meio de tudo isto, fica claro que a forma como nos ligamos aos conteúdos nas redes sociais está a mudar. Mesmo sabendo que nem tudo é real, a proximidade e a confiança continuam a existir, o que ajuda a explicar o impacto crescente deste tipo de influência.






