Temos assistido ultimamente a um caudal de incontinências, umas que prejudicam mais e outras menos, sendo que, na realidade, todas as incontinências deixam a descoberto as incapacidades.
Temos presenciado os efeitos devastadores de um Inverno excessivamente rigoroso e que nos surpreendeu a todos, habituados que estamos a ser poupados a tempestades, tornados e tsunamis que invadem, com alguma recorrência, outras zonas geográficas.
Somos abençoados neste nosso retângulo a sul da Europa, este continente tão admirado quanto cobiçado por muitos. Até quando? Veremos! Certamente depende, muito, das suas lideranças, pois os lobos uivam e salivam em nossa direção.
Mas dizia eu que uma sucessão de tempestades nos tem trazido o caos. Ventos fortes e chuvas torrenciais, até neve, tão pouco habitual em muitas regiões que agora também se viram cobertas de manto branco. Escolas encerradas, casas e estabelecimentos alagados, campos cobertos pelo excesso de água, estradas e caminhos a desmoronar e o pânico a instalar-se entre as populações.
Dir-se-ia que se terá esgotado a habitual bonomia atribuída ao santo considerado, na cultura popular e na tradição católica, responsável pela chuva. No entanto, outros asseguram que São Pedro, já muito idoso, estará com problemas de incontinência. Nada sei de santos e das suas reais responsabilidades, mas uma coisa eu sei, sei que há um velho hábito muito português de “sacudir a água do capote”, atirando culpas para longe. E perante o desespero das populações face às fragilidades estruturais tão expostas nestas circunstâncias, surgiram outras incontinências.
As designadas incontinências verbais, causadas pela impreparação e pela incapacidade de quem deveria ter prestado mais atenção logo ao primeiro aviso meteorológico. Foram, de facto, emitidos avisos de alerta e estes cumpriram o seu objetivo. A Comunicação Social matraqueou com os avisos amarelo, laranja e vermelho e todos viram os mapas assim pintados com estas cores quentes e bonitas.
Tomar precauções é que nem todos. Todos subvalorizaram a gravidade do que vinha com as tempestades anunciadas, os nomes referidos como “Kristin”, “Leonardo” e outros assim, soaram mais a personagens de romance do que a fúria dos ventos e agressão violenta do clima. E todos subestimaram a gravidade dos alertas, quer as entidades responsáveis, quer a própria população. E as águas transbordaram leitos, as barragens mostraram a sua incapacidade para suportar tantos dias de precipitação intensa e houve que libertar os excessos.
A água, antes aprisionada entre leitos e barragens, ao sentir o gosto da liberdade galgou feliz sem olhar a consequências, levando tudo à sua frente. Percebendo tarde demais que a liberdade deve ser usada com contenção e respeito.
Como de costume, ficaram em evidência a falta de preparação e a incapacidade na resposta imediata, de forma eficaz e adequada. É uma consequência muito comum entre quem não se prepara para evitar males maiores, após os avisos e insistentes alertas.
Sempre que há tormentas, incêndios ou tempestades vêm de seguida os alaridos e a gritaria contra a ineficácia do SIRESP. Mas, animemo-nos, na próxima ocasião será igualmente ineficaz!
A língua portuguesa e os seus falantes são tão pródigos em provérbios, porém, também a esses se liga pouco, caso contrário seríamos mais atentos e acautelaríamos a que não houvesse a terceira, depois da primeira e da segunda falhas.
Tudo isto seria apenas matéria para histórias e aprendizagens, que nunca acontecem, não fora a violência dos factos, as vidas e os bens perdidos, muitos deles resultado de trabalho duro, esforçado e muita contenção e sofrimento.
Mais do mesmo, dizemos todos, perante as evidências expostas de infraestruturas impreparadas e insuficientes para enfrentar os desastres ambientais, cada vez mais frequentes, devido às tão faladas e pouco acauteladas alterações climáticas. Dos sistemas de drenagem a um deficiente ordenamento do território, passando pelas redes elétricas que, claramente, não estão capacitadas para estas violentas tempestades, toda a vulnerabilidade veio ao de cima.
Refletir, planear e, em consequência, projetar todas as mudanças necessárias, para uma prevenção séria e consistente, urge e exige mais do que palavras.
Palavras vãs, ditas de forma leviana, inconsistente e até incontinente, sem peso nem substância, apenas indiciam o nervosismo de quem não está à altura dos acontecimentos e da responsabilidade exigida para os cargos que ocupam.
Não, isto não é como a telescola! Não é uma aprendizagem coletiva “on the job”. Espera-se maior preparação e conhecimento de quem ocupa cargos exigentes.
Falar compulsivamente, sem sentido, e em demonstração óbvia de um sentimento de vazio e incapacidade não é admissível num governante que seja exigente consigo e com quem o rodeia. Porque é evidente que quem morreu “não conseguiu evitar essa calamidade”, tão claro como a água da nascente do Mondego, que continua no lugar de sempre, carinhosamente chamado de mondeguinho, quando nos foi apresentado algures no tempo em que andámos na instrução primária.
Falar menos e acautelar mais é o que a sensatez recomenda perante as alterações climáticas, que nos prometem mais frequentes tempestades e intensas enxurradas, sem aviso prévio, porque as alterações “climatéricas” são mesmo assim, imprevisíveis e temperamentais.
Mas, como sempre digo e gosto de pensar, nem tudo é tão mau como parece. Há nestes momentos revelações que nos trazem luz e esperança no ser humano. A resistência das populações perante a adversidade, a solidariedade entre amigos, vizinhos e desconhecidos chega a ser emocionante.
O desvelo e dedicação dos elementos das forças de segurança, dos bombeiros, de todos os operacionais no terreno, sejam da proteção civil, voluntários ou autarcas, tem sido comovedor. Destaque para a presidente do Município de Coimbra, Ana Abrunhosa, que tem estado à altura dos acontecimentos e tanto tem dado de si, do seu conhecimento e apoio eficaz perante um ataque devastador e tão inesperado da Natureza.
Os elogios têm sido generalizados e o reconhecimento que lhe é feito e devido surge a várias vozes, desde logo pela do Presidente da República, que na sua visita a Coimbra elogiou a sua capacidade de comunicação, tendo referido a sua tenacidade e que “se desfez em elogios à autarca, que nos últimos dias tem estado na primeira linha da comunicação ao país sobre as cheias do concelho”, in “JN”, de 13 de fevereiro de 2026.
Por fim, não quero deixar de referir a fraternidade que nos chegou de países irmãos, salientando a ajuda solidária de Timor-Leste, gesto carregado de simbolismo e memória, a História não é apenas letra morta, é vida, é empatia e reconhecimento. Nem só a língua falada nos liga, há compromisso e solidariedade.
E não esqueçamos de fazer sempre como o colibri que no bico transportava água para apagar o intenso fogo. A água no bico de muitos tem efeito.
Todos temos culpa, todos devemos prevenir em vez de remediar e todos juntos temos o dever de cuidar do país. Não apenas esperar que as entidades oficiais o façam. Todos juntos e com responsabilidade, porque o país é de todos nós. Como já alguém disse. «não te perguntes o que o país pode fazer por ti, pergunta-te o que podes fazer pelo teu país». Cidadania ativa e participativa é dever de todos!






