Segunda-feira, Janeiro 19, 2026
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O homem que deu forma à liberdade

A morte de Francisco Pinto Balsemão marca o fim de uma era – uma daquelas raras em que a vida de um homem se confunde com a própria história de um país. Com ele, desaparece uma das figuras mais marcantes da democracia portuguesa: um político que preferiu o dever à popularidade, um jornalista que acreditou na palavra como instrumento de cidadania, e um empresário que viu nos meios de comunicação não apenas um negócio, mas um serviço público. Em tempos de ruído e de pressa, Balsemão foi a voz calma da lucidez, da ponderação e da integridade.

Fundar o “Expresso” em 1973, ainda sob o regime do Estado Novo, foi um ato de coragem. Mais do que um jornal, foi o embrião da liberdade de imprensa em Portugal. Nascido num contexto de censura, tornou-se, depois do “25 de Abril”, num espaço onde o país aprendeu a discutir-se, a criticar-se e a compreender-se. O “Expresso” foi – e continua a ser – um espelho da democracia, moldado pela visão de Balsemão: um jornalismo livre, rigoroso, informado e responsável. Essa herança não se mede apenas em manchetes ou tiragens, mede-se na cultura democrática que ajudou a consolidar, na formação de gerações de jornalistas e na qualidade do debate público que fomentou.

Mas Balsemão não se ficou pelo jornalismo. Foi também um dos fundadores do Partido Popular Democrático, mais tarde Partido Social Democrata, ao lado de Francisco Sá Carneiro, Magalhães Mota e outros pioneiros da democracia liberal portuguesa. O PPD foi, desde o início, um projeto reformista e moderado, que procurava equilibrar a liberdade económica e a justiça social – uma visão que refletia a natureza ponderada de Balsemão. Quando a tragédia de Camarate levou Sá Carneiro, em 1980, o destino colocou sobre os seus ombros a difícil tarefa de liderar o Governo e o país num momento de dor e instabilidade. Fê-lo sem sobressaltos, com a serenidade de quem sabe que a política é, antes de tudo, um serviço e não um palco.

A sua passagem por São Bento foi marcada pela sobriedade e pela ética. Não procurou o carisma, nem o confronto fácil. Procurou antes a estabilidade, o consenso e a dignidade das instituições. Num tempo em que o país ainda consolidava as bases da sua jovem democracia, Balsemão foi uma âncora – um homem que acreditava mais na força das ideias do que nas paixões momentâneas. Talvez por isso tenha sido menos compreendido no seu tempo: num ambiente político que já então premiava o espetáculo, a sua discrição confundia-se com frieza. Mas, à distância, percebe-se que o seu legado político foi o da decência e da coerência – virtudes que, infelizmente, continuam a escassear.

Enquanto empresário e líder do “Grupo Impresa”, Balsemão foi igualmente um visionário. Em 1992, ao fundar a “SIC”, rompeu o monopólio estatal da televisão e introduziu um novo paradigma mediático em Portugal. A televisão privada abriu espaço à diversidade de vozes, ao pluralismo e a uma nova dinâmica na comunicação social. Mais uma vez, Balsemão não foi movido apenas pelo lucro, mas por uma convicção: a de que uma sociedade democrática precisa de meios livres, competitivos e responsáveis. A sua liderança na Impresa foi marcada por essa coerência entre o ideal e a prática – entre o empresário e o cidadão.

A morte de Francisco Pinto Balsemão deixa um vazio difícil de preencher. Representava uma geração que acreditava no valor do serviço público, na responsabilidade de quem tem voz e na importância da ética como guia da ação. Num tempo em que tantas figuras públicas se deixam consumir pela ânsia de notoriedade, Balsemão foi o exemplo contrário: o homem que se impôs pela contenção, pela reflexão e pela coerência. Não precisou de levantar a voz para ser ouvido – bastava falar com clareza e convicção.

Para o PSD, a sua perda é também simbólica. Balsemão encarnava o espírito fundador do partido: liberal nos princípios, social na ambição e ético na prática. Num contexto em que o debate político muitas vezes se reduz a “slogans”, ele recordava a importância da substância – da política como arte do possível, não da demagogia. O PSD perde com ele um referencial moral, um símbolo de moderação e de responsabilidade democrática.

Para o jornalismo, a sua ausência é ainda mais sentida. Num mundo onde a informação se banaliza e o ruído domina, Balsemão foi, até ao fim, um defensor intransigente do rigor, da verdade e da independência editorial. A liberdade de imprensa que hoje tomamos como garantida deve-lhe muito. E talvez o melhor tributo que lhe podemos prestar seja justamente esse: preservar o jornalismo livre, sério e crítico que ele ajudou a erguer.

Francisco Pinto Balsemão partiu, mas o seu exemplo permanece. Deixou-nos um país mais informado, mais plural e mais maduro. Foi um homem de poucas palavras e de muitos atos, de uma discrição que era, em si mesma, uma forma de elegância. E se há algo que o seu percurso nos ensina é que o verdadeiro poder não se impõe – conquista-se pela integridade, pela competência e pelo compromisso com o bem comum.

Portugal fica-lhe a dever parte da sua liberdade. E essa é, talvez, a mais bela forma de imortalidade.

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