A flautista cabeceirense Adriana Ferreira regressou agora à publicação, no caso, de um segundo trabalho do projeto “Prix sans Prix”, o que acontece após um relevante sucesso do primeiro volume. “Prix sans Prix” é um projeto discográfico dedicado a mulheres compositoras dos séculos XIX a XXI, tendo este segundo disco sido gravado no Museu Nacional Soares dos Reis, em Lisboa, e agora apresentado publicamente no Museu Nacional da Música, em Mafra.
O primeiro volume foi lançado em 2025, com obras de compositoras francesas laureadas com o Prémio de Roma; nesse álbum foram gravadas obras originais para flauta e piano pela flautista Adriana Ferreira e pela pianista catalã Isolda Crespi Rubio.
Quanto a este segundo trabalho, inclui obras originais para flauta e harpa, interpretadas pela flautista cabeceirense e pela harpista Silvia Podrecca.
De acordo com o compositor Nuno Jacinto, que escreve sobre o primeiro álbum na revista “Da Capo”, o título, «escolhido de forma deliberadamente irónica», remete para o “Prix de Rome”, prestigiado concurso francês de arte que, durante séculos, esteve vedado às mulheres. «Durante décadas foi sinónimo de conservadorismo e academismo, mas tal se foi metamorfoseando com as novas tendências fulgurantes do século XIX, impulsionando a jovem carreira de compositores hoje imortalizados como Hector Berlioz, Georges Bizet, Jules Massenet ou Claude Debussy», diz.
Para Jacinto, a autora deste projeto «único», Adriana Ferreira, é hoje «uma das flautistas portuguesas mais prestigiadas e internacionais, com uma carreira consolidada em grandes palcos e orquestras».
Lembrando a sua formação no Conservatório de Paris, a licenciatura em Musicologia pela Sorbonne e conquista de concursos como Genebra, Nielsen e Gazzelloni, o contributo da flautista para este trabalho discográfico revestiu-se de «óbvia expectativa, não só pela pertinência programática, mas ainda mais pela interpretação agora eternamente cristalizada no éter musical».
O encontro com a sua pianista de eleição de outros projetos discográficos, Isolda Crespi Rubio, formada no “Royal College of Music” de Londres, permitiu a Adriana Ferreira «uma parceria sólida que, à partida, nos providenciará profundidade artística, como a já testemunhada noutros trabalhos discográficos».
O alinhamento do disco “Prix sans Prix Vol. 1” reuniu, assim, nove peças de compositoras francesas vencedoras do “Prix de Rome”, «exemplos dignos da tradição musical francesa verdadeiramente metamorfoseante do século XX», entre elas nomes como Lili Boulanger, Jeanine Rueff, Elsa Barraine, Ginette Keller, Thérèse Brénet, Rolande Falcinelli, Monic Cecconi-Botella, Odette Gartenlaub e Lucie Robert-Diessel.
Segundo Nuno Jacinto, são peças que maioritariamente povoaram os concursos da classe de Flauta do Conservatório de Paris e, «nalguns casos, peças de poucos minutos, mas cujo valor musical e de fruição é elevado».
Em suma, o primeiro trabalho discográfico “Prix sans Prix” é – de acordo com o compositor – um disco de pertinência assinalável: «a qualidade intrínseca das obras escolhidas, aliada à interpretação ao nível de excelência apenas ao alcance dos verdadeiramente dotados, coloca este projeto e os seus protagonistas, Adriana Ferreira e Isolda Crespi, num plano que merecia (e ainda merece!) maior projeção mediática, tanto a nível nacional como internacional».
«Ao dar voz a compositoras esquecidas, o projeto demonstra-nos mais uma vez que a história da música é mais rica, mais ampla e mais plural do que até agora nos ensinaram. O futuro dependerá da capacidade de continuarmos a escutar estas e outras vozes e de lhes conceder o espaço que sempre mereceram», conclui.
Adriana Ferreira – sublinhe-se – é uma das mais destacadas da sua geração a nível internacional, o que lhe valeu as mais altas distinções nalguns dos mais importantes concursos internacionais de flauta transversal, bem como o lugar de solista na Orquestra Nacional de França e na Orquestra Filarmónica de Roterdão.
Em 2009, aos dezoito anos de idade, obteve o primeiro prémio no Concurso de Interpretação do Estoril – Prémio “El Corte Inglês”, tendo ganho no ano seguinte o Primeiro Prémio, o Prémio da Orquestra e o Prémio do Júri de Jovens Flautistas no Concurso Internacional Carl Nielsen, na Dinamarca.
Em 2013, foi laureada no Japão com o terceiro Prémio no Concurso Internacional de Kobe; antes de obter em 2014 o primeiro Prémio e o Prémio Darmstadt, pela melhor interpretação da Sequenza de Luciano Berio, no Concurso Internacional Severino Gazzelloni em Itália. No mesmo ano, obteve o segundo prémio “ex-æquo” – 1º não atribuído – e o prémio especial “Coup de Cœur”, atribuído pelos “Relógios Breguet”, no Concurso Internacional de Genève, na Suíça.
Natural de Cabeceiras de Basto, Adriana Ferreira começou a estudar flauta transversal na Banda Cabeceirense. Em 2008, obteve um Prémio de Mérito do Ministério da Educação e o Prémio Manuela Carvalho pelos seus estudos na Escola Profissional Artística do Vale do Ave – Artave (2002-2008), na classe de flauta de Joaquina Mota.
Como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, integrou a classe de Sophie Cherrier, Vincent Lucas e Pierre Dumail no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris (2008-2015), onde completou o mestrado e o terceiro ciclo superior, sob a orientação de Hae-Sun Kang. Estudou ainda com Benoît Fromanger, na Hochschule Hanns Eisler de Berlim, e é licenciada em Musicologia pela Universidade Paris-Sorbonne (Paris IV).





