Manuel Batista Quinta
Sacerdote; arcipreste de Cabeceiras de Basto
O dia 19 de março é, no calendário, um cruzamento de caminhos. De um lado, a celebração civil do Dia do Pai e, do outro, a solenidade litúrgica de São José. Para muitos, não passa de uma coincidência de datas, mas para mim é o resumo de uma vida inteira.
Há pais que constroem impérios, que multiplicam influências e que deixam fortunas e o nome gravado em placas de bronze. Depois há aqueles que, como São José, o carpinteiro de Nazaré, preferem construir pessoas. Fazem-no em silêncio, com as mãos sujas de serrim, mas o coração fixo nas coisas simples. Educar um filho é um ofício de marcenaria fina: pegar na matéria bruta e trabalhá-la devagar, respeitando os veios da madeira, até que uma forma comece a emergir, sem manuais e com uma paciência imensa, daquelas que hoje nos faltam.
Ao escrever isto, veio-me à memória o dia em que conheci uma tecnologia fantástica chamada bicicleta. Era uma bicicleta antiga, pesada, que na altura era sucata e hoje seria luxo, mas para mim, miúdo de aldeia, era a liberdade. Foi nela que aprendi a voar rente ao chão.
Em frente da nossa casa tínhamos um caminho em terra batida. Era um bocado de mundo – gigante para mim, enquanto criança – que o sol de verão endurecia e que a chuva, no inverno, generosamente transformava em lama. Tínhamos ainda dois sobreiros centenários, sentinelas e cúmplices de tudo o que ali acontecia e que hoje, infelizmente, já lá não estão.
Num domingo à tarde, diante desses sobreiros, o meu pai empurrava a tal bicicleta e o meu irmão Luís assistia à minha audácia. Quando dei por mim, o meu pai, António, já tinha largado a sua mão firme e então senti-me a voar, embalado pelo sorriso do meu pai e do meu irmão, que naquele dia me fizeram acreditar que a gravidade era um mito.
A ler os Evangelhos, olho para São José e vejo nele o rosto do meu pai, que também é carpinteiro. Como Jesus, também eu vejo no meu pai as mãos gretadas pelo frio e pelo esforço de décadas. Vi, e ainda hoje vejo, o serrim agarrado à roupa como uma segunda pele. Vi, e ainda hoje vejo, o cansaço pousar-lhe no corpo ao fim do dia: o preço pago por uma dignidade maior.
A minha mãe, Maria, segurava o resto da nossa arquitetura familiar com aquela força silenciosa e inquebrável que só as mães conhecem. Ambos criaram três filhos com pouco dinheiro, mas com uma abundância de sentido que nenhuma conta bancária consegue replicar. O Luís, o Agostinho e eu nunca soubemos o que era o supérfluo, mas nunca nos faltou o essencial. Houve sempre pão e colo, mesmo quando o corpo deles pedia o descanso que a vida lhes negava. E houve sempre aquele “vai, tu consegues”, dito sem floreados, com a simplicidade de quem transforma a esperança numa ferramenta de trabalho.
O Papa Francisco, numa imagem de uma beleza extraordinária, chamou a São José o “pai na sombra”. São José não ocupa o centro da história; a luz principal é Jesus, e Maria é o reflexo suave. São José é o céu escuro que permite às estrelas brilhar. É a moldura discreta que não disputa o olhar, mas sem a qual a tela perderia a sustentação. Esta “escuridão” de José faz-me lembrar Caravaggio, com as suas sombras intensas, cheias de uma vida que só se revela a quem tem paciência para olhar para lá da superfície.
O meu pai viveu sempre nessa sombra fértil, sem nunca buscar aplausos; o único projeto fomos nós. Se temos luz, foi porque ele aceitou ser o fundo escuro.
Gosto de imaginar São José, como o meu pai, ao entardecer, depois de um dia de trabalho árduo, sentado com as mãos ásperas de quem domou a madeira, a olhar para dentro de casa, onde Maria e Jesus partilham o pão. É ali que ele é feliz, na periferia do amor onde encontra a sua vocação.
A vida levou-me, a mim e aos meus irmãos, por geografias e missões diferentes. Eu próprio descobri que a minha vocação passaria por uma forma de paternidade diferente, gerada não na carne, mas no espírito. Ser padre, descobri-o com os anos, é um ofício muito parecido com o de carpinteiro. É cuidar, acompanhar e ajudar a crescer. É saber quando segurar a bicicleta e quando largá-la. Talvez tenha aprendido as minhas melhores homilias muito antes de entrar no seminário, naquele caminho de terra batida, a sentir a mão firme do meu pai a guiar-me no medo.
Hoje percebo que, de certa forma, herdei o seu ofício. Ele trabalha a madeira com o formão, a plaina e a garlopa e eu trabalho a memória com as palavras. Os dois sabemos que as coisas verdadeiramente importantes se fazem devagar e quase sempre num silêncio que o mundo não entende. O amor de um pai é aquela mão que nos acompanha: primeiro segura-nos com força enquanto procuramos o equilíbrio e depois larga-nos, embora continue a correr ao nosso lado, atento ao menor desvio.






