[Texto publicado na edição impressa do Terras de Basto n.º 42, de 19 de fevereiro de 2016].
Muito antes do vinho o trazer até Basto, já António José Seguro por cá andava de vez em quando. Alimentava relações com camaradas de Celorico, desde que liderou a lista às legislativas por Braga em 2005. O jantar que lhe organizaram vinte anos depois é apontado como o da confirmação da sua candidatura. Agora, os Bombeiros Celoricenses estão à sua espera.
João Paulo Mesquita
Muito provavelmente, hoje – a dias de tomar posse como Presidente da República –, António José Seguro já diferencia uma camélia de uma rosa, o que, se assim não fosse, pareceria ofensa às gentes de Basto, tão mais familiarizadas com as japónicas cameleiras do que com as universais roseiras.
Vem isto a propósito de um breve instante registado aquando de um dos momentos fundamentais no percurso que o levou a Supremo Magistrado da Nação: a 22 de fevereiro de 2025, terminava ele num restaurante da “capital das camélias” aquele que foi assumido como um determinante jantar-comício, quando os promotores lhe ofereceram um vaso com uma cameleira em flor. Agradecendo, o pré-candidato haveria de mostrar da forma menos feliz a sua admiração pela oferta: “ah, uma roseira!”.
É certo que, sendo um homem que mete as mãos na terra enquanto produtor de vinho e de azeite, também é verdade que lá para os lados de Penamacor, onde nasceu, ou nas Caldas da Rainha, onde vive, não são as camélias a flor mais vulgar, bem pelo contrário. Além do mais, se, de vez em quando suja as mãos na vinha, o mesmo já não acontece no jardim, coisa de pequena monta.
Apesar de não reconhecer a flor oficial de Basto, com que a topiária desenha obras de arte nos jardins de solares e casas senhoriais, António José Seguro já por cá anda há mais de 20 anos, precisamente quando, em 2005, assumiu a liderança da candidatura às legislativas pelo Círculo de Braga. Foi então que travou conhecimento com alguns camaradas celoricenses, entre eles Jorge Teixeira, empresário da distribuição, que o foi apresentando entretanto a outros amigos.
A relação politico-partidária manteve-se, mesmo em contexto de confronto Seguro/Costa, perdurando até ao momento em que, retirado da política ativa, se dedicou ao vinho e ao azeite. E se de flores não percebe, foi o vinho que acabou por reforçar a sua relação com o grupo celoricense, com quem, a partir de então, passou a privar e de que fazem parte, além de Jorge Teixeira, nomes como Hernâni e Raphael Bastos, Jorge Silva Reis, Rui Monterroso, Agostinho Moura ou Joaquim Bastos.
Foi a estes e a outros por eles convidados que António José Seguro veio, há uns tempos atrás, apresentar, n’A Forca, o “Serras P”, a marca líder do seu vinho de Penamacor. E foi a partir de então que se passaram a reunir, de longe a longe, não só para provar uns copos, mas também para tecer considerações políticas. Até ao dia em que se começou a falar de presidenciais.
Conta Jorge Teixeira que, embora se desse conta de que alimentava a ideia e tinha as suas gentes de sobreaviso, Seguro nunca deixou perceber a decisão final: «estávamos a preparar um jantar, mais ou menos para vinte pessoas… Mas, como se começou a alimentar a ideia da candidatura, um amigo convida outro… e já íamos nas 70 pessoas! Ora, quase desmarcava o jantar. Não queria grandes ajuntamentos ainda».
O que é certo é que as condicionantes se precipitaram e, a 22 de fevereiro de 2025, num restaurante das imediações da vila celoricense, se juntaram mais de três centenas de pessoas, já com bancada para as televisões e demais jornalistas. Numa extensa intervenção, depois de ouvir o grupo de «empresários amigos» incitá-lo à candidatura, Seguro ficou a milésimos de anunciar a vontade que alimentava desde que Pedro Nuno Santos, por mero acaso, lançou o seu nome como presidenciável.
Embora não o tenha verbalizado, o que é certo é que este jantar passou a servir de confirmação da sua candidatura, assim voltando Celorico de Basto ao roteiro de mais uma corrida a Belém, como acontecera em 2015, quando Marcelo Rebelo de Sousa viera à terra da “avó Joaquina” iniciar uma caminhada que agora chega ao fim.
Depois do jantar celoricense, a vida de António José Seguro entrou numa lufa-lufa, que só em agosto lhe dispensou um dia para esta terra. Antes de passar pela Feira de Gastronomia, e porque estávamos em tempo de fogos florestais, veio conhecer a área ardida e visitar os Bombeiros Celoricenses, onde assumiu o compromisso de, sendo eleito, voltar ao quartel da corporação para assinalar o centenário da associação humanitária, que passa este ano.
Neste percurso, António José Seguro carrega ainda a mais-valia de ter sido o único, de entre 11 candidatos, a fazer campanha em Basto, numa iniciativa que o levou da Póvoa de Lanhoso ao Centro Cultural celoricense para falar a um auditório cheio.
Embora não saiba quando, Jorge Teixeira – que lhe operacionaliza os jantares cá pela região – acredita que «o Dr. Seguro apareça por aí, um dia destes», sem a capa de Chefe de Estado.

Melhor em Basto do que no país
Foi em Celorico de Basto que António José Seguro obteve, nas Terras de Basto, o melhor resultado eleitoral da segunda volta das eleições presidenciais, realizada a 8 de fevereiro, obtendo 6.574 votos (71,60%).
A nível nacional, num ato eleitoral em que o vencedor foi eleito com o maior número de votos alguma vez expressos para um primeiro mandato – 3.505.846 –, o novo Presidente da República, que toma posse a 9 de março, assim sucedendo a Marcelo Rebelo de Sousa, alcançou os 66,83%.
Depois de Celorico de Basto – concelho cujo presidente de câmara, o social-democrata José Peixoto Lima, lhe declarou publicamente apoio –, foi em Cabeceiras de Basto que António José Seguro obteve outro bom resultado, bem acima da percentagem nacional, com 6.088 votos e 70,36%.
Contrariamente, foi em Mondim de Basto que o candidato da área socialista registou o pior resultado das Terras de Basto, conseguindo 2.197 votos, mas apenas 64,66% dos expressos.
Já em Ribeira de Pena, alcançou 2.092 votos, o que lhe deu também uma percentagem abaixo da nacional – 68,69%.
Sublinhe-se que foi em Mondim de Basto onde o candidato da extrema-direita, André Ventura, registou a sua melhor percentagem, acima da nacional – 35,34% (1.201 votos) – e em Celorico de Basto a pior – 28,40% (2.608 votos).
Quanto a freguesias, a melhor percentagem de António José Seguro verificou-se em Santa Marinha (Ribeira de Pena), com 79,04%, enquanto a pior se registou na União de Ermelo e Pardelhas (Mondim de Basto), com 56,10%.
Em Celorico de Basto, a melhor freguesia para o vencedor foi a União de Veade, Gagos e Molares (77, 80%); e para o derrotado foi Agilde (43,04%). Em Cabeceiras de Basto, a melhor percentagem de Seguro foi em Riodouro (76,11%) e a melhor de Ventura foi São Nicolau (41,62%). Em Mondim de Basto, a melhor para Seguro foi São Cristóvão (68,65%) e a melhor para Ventura foi a União de Ermelo e Pardelhas (43,90%). Em Ribeira de Pena, a melhor percentagem de Seguro foi em Santa Marinha (79,04%), enquanto a melhor de Ventura foi em Canedo (37,11%).
Eleitorado ainda valoriza equilíbrio e moderação
As presentes eleições presidenciais – recorde-se – ficaram marcadas por um desfecho que poucos antecipavam com tanta clareza meses antes: a vitória de António José Seguro à segunda volta, após uma disputa renhida e politicamente reveladora. Mais do que uma simples alternância em Belém, o resultado traduziu uma recomposição do espaço político e uma mensagem clara do eleitorado sobre estabilidade, moderação e confiança institucional.
Na primeira volta, o cenário foi fragmentado, refletindo um país politicamente plural e ainda a digerir ciclos recentes de instabilidade governativa e tensão parlamentar. António José Seguro apresentou-se como candidato independente, embora com raízes profundas no Partido Socialista, apostando numa campanha centrada na experiência política, no perfil conciliador e na defesa do papel moderador do Presidente da República. O seu discurso evitou radicalismos e procurou captar eleitores ao centro, tanto da esquerda como da direita moderada.
O resultado da primeira volta confirmou essa estratégia: Seguro ficou em primeiro lugar, mas longe da maioria absoluta necessária para vencer à primeira. O segundo lugar foi conquistado por um candidato apoiado pela direita, que conseguiu mobilizar um eleitorado mais ideologicamente coeso, mas menos transversal. Os restantes candidatos dividiram o voto, sobretudo à esquerda e no espaço mais protestatário, impedindo qualquer definição imediata.
A passagem à segunda volta colocou frente a frente duas visões distintas para o cargo presidencial. De um lado, Seguro, defendendo um presidente-árbitro, atento à coesão institucional e social. Do outro, um candidato com discurso mais combativo, apostando na ideia de um presidente interventivo e disposto a confrontar o Governo e o Parlamento sempre que necessário.
A segunda volta registou uma participação ligeiramente superior, sinal de que o confronto direto mobilizou setores que haviam optado pela abstenção inicial. O resultado final confirmou a vantagem de Seguro, com uma margem confortável, embora não esmagadora. O novo Presidente foi eleito com um apoio maioritário claro, mas num país que continua politicamente dividido: em 11.039.672 inscritos, votaram 5.519.808, nada mais nada menos do que metade. Estas eleições não foram apenas um teste aos candidatos, foram também um barómetro do estado da democracia no país. A escolha de António José Seguro sugere que, apesar do ruído político dos últimos anos, o eleitorado continua a valorizar o equilíbrio, a moderação e o diálogo institucional como pilares da estabilidade do regime.






